VI Domingo da Páscoa (Ano A). Testemunhas de Esperança

Primeira Leitura: Actos 8, 5-8, 14-17
Salmo: 65(66), 1-3a, 4-5, 6-7a, 16, 20
Segunda Leitura: 1 Pedro 3, 15-18
Evangelho: João 14, 15-21

 

Com o Pentecostes já a aproximar-se, a apenas duas semanas de distância, a Igreja convida-nos, neste Domingo, a dispor mais profundamente o coração para acolher de novo a plenitude do Espírito Santo.

No Evangelho deste Domingo recuamos ao cenário da Última Ceia e ao discurso íntimo feito por Jesus aos discípulos antes de se dirigir ao Getsémani. São, assim, das últimas palavras a serem proferidas por Jesus antes da Sua Paixão e Morte. Relata-nos São João:

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco: Ele é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas que vós conheceis, porque habita convosco e está em vós. Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a pouco o mundo já não Me verá, mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis. Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós. Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».

«Se me amardes, guardareis os meus mandamentos»

É assim que abre o Evangelho deste Domingo. Jesus liga o amor à fidelidade concreta. «Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos.» Ao longo do Evangelho, Cristo mostra-nos repetidamente que o amor verdadeiro não permanece apenas no sentimento, mas traduz-se em gestos, decisões e obediência confiante.

Na mesma linha, recordemos Maria Madalena a chorar junto ao túmulo de Cristo. Jesus olha-a, chama-a pelo nome e, depois de entrar na sua dor, envia-a numa missão: «Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que vou subir para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus» Vai e diz! O amor que chora transforma-se, pela palavra de Cristo, em missão. Quem ama, escuta; quem ama, responde; quem ama, põe-se a caminho.

Também no Evangelho de hoje esta é a primeira grande mensagem: «Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos». Ou seja, o amor, quando é verdadeiro, manifesta-se através de acções, no cumprimento dos Mandamentos, isto é, no cumprir da vontade de Deus na minha vida.

Importa, porém, compreender bem esta obediência cristã. Não se trata de submissão por medo, nem do peso frio de uma obrigação exterior. Obedecer a Deus é confiar n’Aquele que nos ama e sabe o que é melhor para nós. É a obediência do filho que reconhece no pai uma autoridade nascida do amor.

Por isso, cumprir os Mandamentos não é mera observância moral. É uma expressão viva do amor a Cristo. Não há oposição entre amor e obediência: o amor autêntico é aquele que deseja corresponder.

Mas Jesus vai ainda mais longe. Sabe que esta fidelidade não surge apenas das nossas forças. Por isso, promete o Paráclito, o Espírito Santo, que virá sustentar em nós aquilo que sozinhos não conseguiríamos viver. O amor cristão não é apenas esforço humano. O amor cristão é graça acolhida e correspondida.

A promessa de um novo Paráclito

«Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco». Em grego, Paráclito significa literalmente «aquele que é chamado ao lado do outro». Podemos então ver o Espírito Santo como um advogado de defesa que fica ao nosso lado para nos consolar, defender e apoiar. O Pai enviou Jesus, o Seu Filho, ao mundo ; agora, por intercessão de Cristo, envia-nos o Espírito Santo. Ambos revelam o cuidado de Deus, que nunca abandona os Seus filhos.

Jesus chama-Lhe «o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas que vós conheceis, porque habita convosco e está em vós». É chamado «Espírito da verdade» porque nos torna capazes, de conhecer verdadeiramente Jesus e, n’Ele, o Pai. Será, no entanto, invisível, ao contrário de Cristo, que era visível mesmo para aqueles que O rejeitavam. Não só será invisível, como não estará limitado no tempo e no espaço: não será visto, mas será conhecido porque não só estará com eles, como estará neles. Não Se impõe aos olhos, mas revela-Se ao coração disponível. A presença de Deus torna-se íntima e transformadora. Com estas palavras, Jesus mostra também o carácter consolador do Espírito Santo. Aos Apóstolos, que depois da morte de Jesus ficarão desanimados e perdidos, Cristo assegura: «Não vos deixarei órfãos». A sua partida não significa abandono.

Com o Espírito Santo, Jesus concede paz aos discípulos, uma paz divina, que não depende da situação de vida de cada um; é consequência do amor que Deus tem por eles e por nós. A partida de Cristo não é, portanto, um abandono. É o início de uma comunhão mais profunda com Deus, que passamos a conhecer como Trindade.

Mas, regressando ao início do Evangelho, qual é a relação entre o Paráclito e o amor de que Jesus nos fala? É o Espírito Santo que nos permite amar a Deus e guardar os seus mandamentos. É através do Espírito Santo que Deus age em nós.

A Confirmação

Se no Evangelho escutámos a promessa de Jesus da vinda do Paráclito, na primeira leitura vemos essa promessa a cumprir-se na vida concreta da Igreja nascente. Esta revela-nos as raízes de um sacramento intimamente ligado à promessa de Cristo: o sacramento da Confirmação ou do Crisma. O Espírito Santo, que Jesus prometeu enviar, age invisivelmente nos corações, mas, simultaneamente, quis manifestar-Se também através de sinais visíveis, nos Sacramentos. Como diz Santo Agostinho: o sacramento é um sinal visível de uma graça invisível.

O episódio narrado nos Actos dos Apóstolos, ocorre após o Pentecostes e relata a pregação de Filipe, diácono na Samaria, e o Baptismo de muitos daqueles que o ouviram. Perante esta notícia, os Apóstolos enviam Pedro e João, que rezam pelos novos fiéis e lhes impõem as mãos, para que recebam o Espírito Santo.

Surge então uma pergunta natural: se Filipe evangelizou e baptizou, porque é que não é ele próprio que impõe as mãos sobre os neófitos? Porque o diácono apenas pode pregar e baptizar. A faculdade de comunicar o Espírito Santo só foi concedida aos Apóstolos, que a transmitiram aos seus sucessores. Claro que no Baptismo também recebemos o Espírito Santo, mas o que São Lucas aqui descreve é o primeiro testemunho bíblico do sacramento da Confirmação. A Confirmação dá-nos a graça de sermos testemunhas do Espírito Santo. Como diz o Catecismo da Igreja Católica, no ponto 1288: «A partir de então, os Apóstolos, para cumprirem a vontade de Cristo, comunicaram aos neófitos, pela imposição das mãos, o dom do Espírito para completar a graça do Baptismo.»

Testemunhas da esperança

A segunda leitura completa este quadro, e transforma-o com um convite dirigido a cada um de nós. São Pedro convida-nos a viver vidas tão cheias de esperança, que provoquem a interrogação de outros, criando naturalmente oportunidades para falar sobre Cristo. Por isso o Apóstolo escreve: «Estejam sempre preparados para dar uma explicação» não com arrogância, mas com gentileza e respeito, fugindo ao pecado e vivendo de forma coerente com aquilo em que cremos.

Amor, comunhão e obediência, tudo isto nos é dado pelo dom do Espírito Santo. Ao entrarmos nos dias que antecedem o Pentecostes, procuremos dedicar mais tempo à oração no nosso quotidiano e peçamos a Deus, com fervor, que renove em nós os dons do Espírito Santo nesta festa que se aproxima. O Espírito que Jesus prometeu não é uma memória do passado é uma presença viva, aqui, hoje, à espera de ser acolhida.

Texto baseado em Mass Readings Explained – Year A de Brant Pitre; a Catena Aurea de São Tomás de Aquino; e em Reflections on the Sunday Mass Readings – Year A, de John Bergsma.

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