
Primeira Leitura: Actos 1, 1-11
Salmo: 46 (47), 2-3.6-7.8-9
Segunda Leitura: Efésios 1, 17-23
Evangelho: Mateus 28, 16-20
Celebramos hoje uma verdade que faz parte da nossa fé. Com efeito, dizemos no Credo: creio que Jesus Cristo subiu aos Céus e está sentado à direita do Pai. Esta verdade, a Ascensão de Jesus ao Céu em corpo e alma, segundo os Actos dos Apóstolos, aconteceu quarenta dias depois da Páscoa. Por isso, celebramos agora esta festa. Deveria ter sido na quinta-feira passada, mas os nossos bispos, como os de muitos outros países, porque não era feriado na quinta, e para que todos pudessem celebrar a festa, passaram a solenidade para o Domingo seguinte.
A Ascensão de Jesus está atestada na Sagrada Escritura. De forma explícita, São Lucas conta quer no seu Evangelho (Lc 24, 50-51), quer nos Actos dos Apóstolos (Act 1, 6-11), que Jesus, depois da ressurreição, passados uns dias, reuniu os Seus Apóstolos num monte e «foi elevado à vista deles». Mas também são muitas as vezes que esta verdade sobre Jesus é dita de forma implícita nas Epístolas de São Paulo, nas de São Pedro ou nas de São João. Em muitas das cartas dos Apóstolos dá-se como um facto comprovado que Jesus está no Céu, não só com a Sua natureza divina, mas também com a Sua natureza humana.
Podemos dizer que, de certo modo, também São Mateus conta o episódio. Nos últimos versículos do Evangelho que lemos na Missa de hoje, não se diz que Jesus «subiu» – essa expressão é usada por São Lucas, como vimos, e por São Marcos, na síntese que faz das aparições de Jesus ressuscitado, quando diz: «o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus» (Mc 16,19:) –, mas, no seu relato, São Mateus descreve um encontro de Jesus com os Apóstolos em que lhes confere uma missão especial: «Ide por todo o mundo», e lhes promete: «Eu estarei convosco todos os dias», dando a entender que se despede, precisamente porque volta para o Céu.
Vejamos, com o auxílio dos textos da Missa de hoje, mais de perto o significado deste acontecimento. Recordemos, antes de mais, que, durante 40 dias, Jesus ressuscitado apareceu aos seus discípulos. Jesus encontra-se com as mulheres, os Apóstolos, os discípulos que iam a caminho de Emaús, etc., e a todos confirma a vitória sobre a morte, preparando também os discípulos para a fase que virá depois, o tempo da Igreja. São Paulo dirá que uma vez apareceu a mais de quinhentos irmãos reunidos.
É importante recordar, e dizer com toda a precisão, que estamos diante de encontros reais em que Jesus está presente de corpo e alma. Com o mesmo corpo concebido por Maria e que morreu crucificado, por isso, mantendo as chagas, Jesus vem ao encontro dos seus amigos. Contudo, há algo de diferente. Jesus, desde a Sua ressurreição, entrava e saía da sala sem que fosse preciso abrir as portas! Estava com os discípulos no caminho e deixava de estar à vista, mas eles continuavam entusiasmados! Podemos dizer que Jesus tinha um corpo glorioso. Com prerrogativas diferentes das que tinha antes de ter morrido na cruz.
Para que se perceba bem o significado da Ascensão de Jesus ao Céu em corpo e alma, importa dizer que o corpo de um homem não é apenas uma coisa sobreposta à pessoa, mas, muito mais profundamente, o corpo está unido à alma de tal forma que devemos dizer que o ser da pessoa é a unidade. Por isso, quando dizemos que o Corpo de Jesus ressuscitou, estamos a dizer que Jesus ressuscitou. Do mesmo modo, quando dizemos que o corpo de Jesus subiu aos Céus, queremos dizer que toda a humanidade de Jesus está agora no Céu.
Porém, o corpo de Jesus ressuscitado, como dissemos, é considerado corpo glorioso, pois, embora não deixe de ser corpo, possui novas propriedades, provenientes da graça própria de ser Filho. Nunca nos esqueçamos que Jesus é Deus feito homem! Assumindo a natureza dos homens, com as fragilidades que nos vêm do pecado original, Ele como que escolheu que a graça não redundasse até ao seu corpo. É por isso que, apesar de ser Filho de Deus, experimentou várias fragilidades, como a fome e a sede, mas, especialmente, a dor e a morte. Apesar de nunca ter pecado, quis experimentar o sofrimento e por meio dele nos salvar.
Com a ressurreição há algo de novo. Ele não se limita a voltar a viver, mas a Sua vida humana é transfigurada. Para dizer com o Catecismo da Igreja Católica, «o corpo de Cristo é, na ressurreição, cheio do poder do Espírito Santo; participa da vida divina no estado da Sua glória, de tal modo que São Paulo pode dizer de Cristo que Ele é o homem celeste.» (CIC 646) É assim que Jesus, com um corpo glorioso, ascende aos Céus. É Jesus ressuscitado, com a Sua humanidade totalmente glorificada pela união à divindade do Filho, e já sem precisar de estar submetida à condição da nossa humanidade ferida, que entra nos Céus.
Para os Apóstolos, este acontecimento é a derradeira e definitiva prova da divindade de Jesus. Por isso, fazem o que é óbvio: quando o vêem, prostram-se para adorar Jesus. Como diz o Evangelho: «Ao vê-lo, prostraram-se diante dele» (v. 17). Vejamos o percurso feito pelos Apóstolos. Desde o primeiro encontro com Jesus, um grupo de discípulos que começou a segui-lo por curiosidade, vivendo com Ele, foi crescendo na percepção da identidade de Jesus. Primeiro deram-se conta de que Jesus era especial, depois perceberam que era o Messias, começaram, depois, a ver que Ele era o Filho de Deus e, a certa altura, tornou-se evidente que era mesmo divino. Quando viram Jesus a fazer milagres perceberam que era especial, mas quando Jesus diz a alguém que os seus pecados estão perdoados, ou quando diz que O devem amar acima de todos os outros, percebem que é divino. De facto, um judeu no tempo de Jesus sabia bem que só Deus pode perdoar os pecados e que só Deus pode pedir para ser amado acima de tudo o mais. Agora, depois da ressurreição, a partir da experiência que tiveram, não há dúvida nenhuma, Jesus é mesmo Deus! A experiência do reconhecimento da divindade de Jesus expressa-se no acto interior de adoração, que, por sua vez, se mostra exteriormente na prostração.
Três notas sobre este acontecimento, tal como ele nos é contado na primeira leitura de hoje, tirada dos Actos dos Apóstolos. É ali que de forma mais detalhada se contam os pormenores do que se passou.
- Uma primeira nota consiste em dizer que Jesus subiu aos «aos céus». Quer dizer que, com a Sua humanidade, que é uma humanidade igual à nossa em tudo excepto no pecado, entra no que podemos chamar de «intimidade de Deus», o Céu. Se os salmos recordavam muitas vezes o pedido do coração humano de ver o rosto de Deus, ou de conhecer o coração de Deus, agora a nossa humanidade, na Pessoa de Jesus, tem acesso a esses mistérios do Céu. O que é este Céu? Tudo o que de mais excelente possamos imaginar ainda está muito aquém do que é verdadeiramente o Céu. Não cabe na nossa imaginação, nem sequer basta dizer que é um lugar muito distante. Facilmente corremos o risco de reduzir o Mistério se achamos que é possível imaginá-lo! São Paulo, na Carta aos Efésios, que lemos como segunda leitura hoje, reconhece-se incapaz de descrever o Céu, dizendo, apenas, que ele está «acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado.» Não é mesmo possível descrever o Céu! Podemos, apenas, apontar para ele e afirmar que é ali que a nossa sede de Vida se saciará.
Não podemos descrever o Céu, mas sabemos que está sempre ligado à perfeição. O Céu é a vida eterna, é o amor puro, a alegria completa. O Céu é Deus! E também podemos dizer que não sendo o Céu um lugar como são os lugares deste mundo, inclui, contudo, algo de físico, não é uma coisa só espiritual, pois o Corpo de Jesus é mesmo um corpo e está no Céu. É um corpo glorificado, um corpo espiritual como dirá São Paulo, mas corpo verdadeiro! Porque a humanidade de Jesus está completa no Céu.
- Uma segunda nota tem que ver com a relação entre a Ascensão e a Encarnação de Jesus. Diz-nos o texto dos Actos dos Apóstolos que uma nuvem ocultou, ou cobriu, Jesus. Isto tem alguma semelhança com o que se diz que aconteceu no momento da Encarnação. O anjo, com efeito, diz a Maria: «O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo cobrir-te-á com a Sua sombra» (Lc 1, 35). A nuvem que cobre Jesus quando Ele sobe ou que cobre Maria quando o Filho é concebido é sinal de se estar diante de um grande Mistério, ou seja, da presença do Espírito Santo. Na Encarnação, é Deus a descer para se unir à humanidade, na Ascensão é a humanidade redimida que sobe até Deus. Momentos diferentes do mesmo Mistério da humanidade unida à divindade. A Encarnação atinge o seu ponto culminante na Ascensão. Vemos, assim, cumprir-se o plano de Deus: Deus fez-Se homem para nos fazer a nós, filhos de Deus, para nos unir ao Filho a ponto de passarmos a ser também nós filhos de Deus. Entramos na nuvem, isto é, no Mistério de Deus, na comunhão com Deus!
Esta comunhão com Deus, que se começa a experimentar já na terra, é realizada porque nos é dado o Espírito Santo. Essa Pessoa divina que une o Pai e o Filho no amor eterno, agora abraça também a humanidade de Jesus e nela abraça todos os homens e mulheres. Quando no próximo Domingo celebrarmos a descida do Espírito Santo estaremos a celebrar esta mesma comunhão. De algum modo, a Ascensão de Jesus e a descida do Espírito Santo são dois momentos do mesmo Mistério, da comunhão dos humanos com a Santíssima Trindade, que se começa a viver neste mundo, pela fé, e de que se terá pleno gozo no Céu. Mas é a mesma comunhão de vida!
- Ouvimos, ainda, quer na primeira leitura quer na segunda, que Jesus «senta-se à direita do Pai», e podemos ver nesta expressão algo equivalente ao que diz São Mateus no Evangelho: «todo o poder me foi dado no Céu e na terra». Quando dizemos que, com a Ascensão, Jesus se senta à direita do Pai, estamos a dizer que retomou o poder divino, depois do combate que travou em nome da humanidade; agora, finalmente, pode governar o Seu Reino. Esta é a inauguração definitiva do Reino de Deus que Jesus nos ensinou a pedir no Pai-Nosso que viesse a nós. Mistério grande este de pensar que nós podemos pedir que venha até nós hoje, já, o Reino de Deus que é dos Céus. Isto explica de forma ainda mais clara porque devemos obedecer em tudo a Jesus e aos seus ensinamentos, mas também mostra que podemos confiar totalmente n’Ele, pois Aquele que é nosso rei é alguém que nos ama a ponto de ter dado por nós a vida. Não só não devemos ter medo, como devemos ter uma confiança total. Como dirá São João, temos no Céu um Advogado que intercede por nós!
Podemos, agora, tirar algumas conclusões para nós deste acontecimento da vida de Jesus. Com a Ascensão, Jesus Cristo, Verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, entra na comunhão de vida trinitária. Uma vez que na Encarnação, de certo modo, se uniu a todos os seres humanos. É dado àqueles que pela fé e pelos sacramentos acolhem a vida que Jesus veio dar a possibilidade de se tornarem, como diz São Paulo, membros do Seu Corpo. Ouvimos dizer na segunda leitura: «Jesus é a Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude daquele que preenche todas as coisas». Porque Jesus é a nossa cabeça e já está no Céu, cabe-nos a nós estar unidos, pela fé e pela caridade, ao Corpo de Cristo para entrarmos também nós no Céu. Esta entrada de Jesus no Céu é o pleno cumprimento da promessa de Salvação e a inversão do que fora o Pecado Original. Se Adão e Eva tinham sido expulsos do paraíso, não foi porque Deus se zangou, mas porque se tornaram incapazes de acolher as graças de Deus! Desde, então, a nossa humanidade vive fora do lugar onde Deus habita. Mesmo que Deus nunca nos tenha abandonado e desde logo tenha iniciado um processo que iria desembocar nesta entrada da humanidade no Céu que celebramos hoje. Depois de Cristo ter oferecido como sacrifício a Sua vida, os humanos que O acolhem podem entrar de novo no Céu. O Primeiro Adão, por causa do pecado, experimentou a morte e ficou fora do paraíso. O segundo Adão ressuscitou dos mortos e entrou no Céu. Os descendentes do primeiro Adão, isto é, toda a humanidade, experimentam esta pena do Pecado original. Mas os que, pela fé e pelo Baptismo, se tornam «herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo», esses nascem para uma vida nova, tornam-se filhos de Deus e voltam para a casa do Pai.
Uma última nota, que creio ser muito importante, tem que ver com as últimas palavras do Evangelho. Dizemos que Jesus «subiu» ao Céu. Este facto indica que Jesus deixa de estar submetido ao tempo e ao espaço, ou seja, entra na eternidade e, por isso, a sua relação com o tempo e os lugares deste mundo é, agora, diferente. Ele, com toda a Sua Pessoa, com a natureza divina e a humana unidas numa só Pessoa, está, de facto, na Glória de Deus, mas isso quer dizer que está ligado a todos os tempos e a todos os lugares. É isso que Jesus explica ao dizer, como ouvimos no Evangelho de hoje: «Eu estarei convosco todos os dias, até à consumação dos séculos» (Mt 28, 20). Não fica só na memória de cada um, ou nos escritos ou instituições que continuam a Sua obra, mas permanece pessoalmente com cada um. Ele está especialmente presente neste mundo através da unidade da Igreja Católica e está activamente presente, agindo e santificando por meio dos sacramentos, falando pela Palavra da Sagrada Escritura, correctamente interpretada pelo magistério da Igreja, e conduzindo a Igreja por meio dos pastores que Ele chama para esse serviço. Podemos, por isso, dizer que, na Igreja, o Corpo de Cristo mesmo estando no Céu, na Sua glória, subsiste e pode ser encontrado neste mundo, em qualquer parte do mundo, de muitas formas, mas especialmente na Eucaristia, quando o pão é transformado em Corpo de Cristo e Ele se torna realmente e substancialmente presente, sem deixar de estar no Céu. Se não tivesse subido ao Céu, não teria esta possibilidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, porque estaria limitado. A Ascensão de Jesus é, por isso, não a partida de Jesus, mas a entrada no Céu que assegura a Sua presença, ao mesmo tempo que nos indica a morada definitiva.
Em conclusão, podemos daqui tirar alguns desafios para a nossa vida. Como dizia São Tomás de Aquino, a Ascensão de Jesus faz-nos crescer na fé, na esperança e na caridade. Na fé, porque nos faz acreditar de modo ainda mais certo que Jesus é divino. Na esperança, porque nos purifica o coração para não ficarmos parados nos bens terrenos e fixarmos os olhos nas coisas eternas. Finalmente, com a Ascensão, o Senhor faz crescer a caridade em nós, porque visto que amar é querer o bem do outro, então, quanto maior for o bem que queremos, maior podemos dizer que é o amor, o que quer dizer que, como pela Ascensão passamos a saber que podemos querer para os outros o Céu, então a caridade é maior, já que passamos a poder querer o maior dos bens. Além disso, vendo que Cristo entra no Céu depois de ter por amor dado a vida por nós na cruz, ganhamos fervor na vontade de agarrar, como Ele, a cruz e de dar a vida para poder, como Ele, chegar à plenitude da vida no Céu.




