Domingo de Pentecostes

Primeira Leitura: At 2, 1-11; Sl 103 (104), 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34
Salmo: Salmo 103 (104), 1ab e 24ac.29bc-30.31.34
Segunda Leitura: 1Cor 12, 3b-7. 12-13
Evangelho: Jo 20, 19-23



  1. Sopro, cumprimento da promessa e missão.

     

Este Domingo a Igreja festeja uma das grandes festas do ano litúrgico. Corresponde, num certo sentido, à festa do Espírito Santo, pois é a celebração do dom do Espírito recebido pelos Apóstolos no dia de Pentecostes. Há quem diga até que é o nascimento da Igreja.

Comecemos por notar como os Judeus, segundo o calendário do Antigo Testamento (cf. Levítico 23), possuíam um ciclo anual de festas, tal como os católicos. O livro do Levítico aponta sete grandes festas: a Páscoa, a festa dos Pães Ázimos, a das Primícias, o Pentecostes, a festa das Trombetas, o dia da Expiação e a festa dos Tabernáculos. Ora, destas sete, duas mantiveram-se na Nova Aliança: a Páscoa e o Pentecostes.

Como é típico do Tempo Pascal, também o Evangelho do Pentecostes, o clímax do Tempo Pascal, é retirado de São João. Diz assim:

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. E Ele voltou a dizer-lhes: «A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.» Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos.»

 

Como se sabe, esta passagem corresponde à instituição do Sacramento da Penitência e da Reconciliação, contudo não é esta a razão principal pela qual a Igreja a escolhe para o Pentecostes. Assim sendo, destaquemos os três elementos que ligam esta passagem à festa do Pentecostes.

O primeiro é o soprar de Jesus sobre os Discípulos. Tanto no Antigo Testamento, em hebraico, como no Novo, em grego, a palavra que se utiliza para «espírito» é precisamente a mesma que para «sopro». Em hebraico ruach; em grego pneuma, de onde vem «pneumático», que utilizamos, e.g., para descrever a broca pneumática, i.e., uma broca que funciona com ar ou com «sopro», ou até com «espírito», no sentido em que é o ar comprimido que anima a ferramenta. Ora, visto que pneuma significa «espírito» ou «sopro», compreendemos, assim, a forma muito concreta de Jesus expressar o dom do Espírito que lhes está a ser concedido ao soprar.

O segundo elemento é como Jesus diz de modo explícito: «Recebei o Espírito Santo (pneuma hagion)». Verificamos o cumprimento do que Jesus tinha prometido no discurso da Última Ceia quando diz que vai partir, mas que voltará, e então nos dará o dom do Espírito (pneuma). Ou seja, um dos aspectos que a Igreja pretende realçar ao escolher esta passagem é o cumprimento da promessa de Jesus aos Discípulos, i.e., o culminar do Tempo Pascal pelo cumprimento da promessa realizada antes da paixão e morte de Jesus.

O terceiro elemento, que pode muito facilmente passar despercebido, corresponde ao aspecto missionário deste dom. Quando Jesus sopra sobre os Discípulos e lhes dá o dom do Espírito Santo não está tão somente a dar-lhes o poder de perdoar e reter os pecados, não obstante a sua centralidade, como também a constituí-los Apóstolos. «Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.» (João 20:21) De facto, «Apóstolo» – grego apóstolos – significa, ao pé da letra, enviado. Quer dizer, apóstolo é aquele que é enviado. O terceiro elemento corresponde, então, a como os Discípulos estão a ser enviados com a mesma missão que Cristo recebeu – e cumpriu, com o poder do Espírito, como mostra a passagem do baptismo de Jesus no rio Jordão. Agora, Jesus dá-lhes o mesmo Espírito para os enviar a cumprir a mesma missão: levar a Boa Nova ao mundo.

 

  1. As raízes judaicas do Pentecostes.

     

Com isto em mente, voltemo-nos para a primeira leitura. Trata-se de uma das passagens mais importantes dos Actos dos Apóstolos: a descrição do próprio Pentecostes e da descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos.

Quando chegou o dia do Pentecostes, encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar. De repente, ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde eles se encontravam. Viram então aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem. Ora, residiam em Jerusalém judeus piedosos provenientes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou estupefacta, pois cada um os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: «Mas esses que estão a falar não são todos galileus? Que se passa, então, para que cada um de nós os oiça falar na nossa língua materna? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas, as maravilhas de Deus!»

 

Muito poderia ser dito acerca desta leitura, mas foquemo-nos apenas nos aspectos mais pertinentes para a festa do Pentecostes. Comecemos pelo próprio Pentecostes. «Quando chegou o dia do Pentecostes». Convém, então, compreender que dia era este. Ora, Pentecostes, do grego Pentekosté, significa literalmente quinquagésimo. Era o quinquagésimo dia após a Páscoa. Os judeus contavam sete semanas a partir da Páscoa – 7*7 – e acrescentavam um dia. Neste quinquagésimo dia celebravam uma grande festa. Por isso, para além de Pentecostes, no hebraico do Antigo Testamento chama-se também a esta festa a «Festa das Semanas» (Shavuot), pondo, deste modo, a tónica nas sete semanas que decorriam entre a Páscoa e o Pentecostes. O Pentecostes – ou Festa das Semanas – era uma das mais importantes festas judaicas, dado que era uma de apenas três festas de peregrinação, a par da Páscoa e da Festa dos Tabernáculos, no outono. Ou seja, por três vezes ao ano, os homens judeus adultos tinham a obrigação, segundo a Lei, de subir a Jerusalém, ao santuário, para oferecer um sacrifício naquele dia. Durante o Pentecostes celebrava-se a colheita da primavera. Assim como na Páscoa se cortava e oferecia no Templo o primeiro feixe de cereal – numa festa chamada Primícias –, cinquenta dias depois trazia-se a colheita completa da primavera, que era então celebrada na Festa do Pentecostes. Era, portanto, uma festa agrícola e alegre.

Esta é a dimensão agrícola do Pentecostes, que vem do Antigo Testamento. Mas há também uma outra dimensão, cuja maior parte das festas judaicas igualmente posuía: uma dimensão histórico-salvífica. Quer dizer, cada festa funcionava também como memorial de um acontecimento da história da salvação. A Páscoa, e.g., era o memorial da noite em que os israelitas foram libertos do Faraó. O Pentecostes, segundo a tradição judaica, tornou-se o memorial da chegada ao Monte Sinai e da recepção da Lei de Deus, tal como é narrado nos capítulos 19 e 20 do livro do Êxodo. Segundo o Talmude da Babilónia, diz-se que o Pentecostes é «o dia em que a Torá foi dada» a Israel, ou seja, o dia em que os Dez Mandamentos foram entregues ao povo, quando Moisés subiu ao monte e recebeu o Decálogo do próprio Deus. Compreendemos, assim, o quão importante era esta festa para Israel.

De facto, apenas à luz dessa tradição judaica é que estamos em condições de compreender, na sua plenitude, o segundo elemento do relato de São Lucas nos Actos dos Apóstolos: a descida do Espírito Santo em línguas «à maneira de fogo». Ora, por que razão toma o Espírito Santo essa forma específica? Ou seja, por que não desce o Espírito Santo, e.g., em forma de pomba sobre os Apóstolos no Pentecostes, tal como aconteceu no Baptismo de Jesus? Por que razão são línguas de fogo? Poder-se-ia simplesmente pensar: é porque eles começam a falar em línguas, e o Espírito Santo é como uma chama, um fogo que os capacita a fazer isso. Certo. Mas do ponto de vista judaico há mais em jogo aqui, algo que está ligado à Festa das Semanas. Se recuarmos ao livro do Êxodo, capítulo 19, e lermos o relato bíblico do momento em que Moisés recebeu a Lei, vamos notar um paralelo significativo. Aqui temos a descrição do momento em que receberam a Lei no Monte Sinai. Seria esta a passagem das Escrituras lida na sinagoga durante a Festa Judaica das Semanas. Eis o que diz:

E eis que, no terceiro dia, ao amanhecer, houve trovões e relâmpagos e uma nuvem pesada sobre a montanha, e um som muito forte de trombeta, e todo o povo que estava no acampamento tremia. Moisés fez sair o povo do acampamento ao encontro de Deus, e colocaram-se no sopé da montanha. A montanha do Sinai estava toda coberta de fumo, porque o Senhor tinha descido sobre ela no fogo […].

 

O texto continua, narrando como, a partir daquele fogo, Deus fala e Moisés sobe para receber a Lei: os Dez Mandamentos, a Torá. Torna-se, então, claro o paralelismo. Enquanto no relato do Antigo Testamento, no Monte Sinai, o Senhor desce sobre os israelitas – as doze tribos – em forma de fogo, no relato da Nova Aliança, no Pentecostes, memorial do acontecimento do Monte Sinai, o Espírito Santo desce sobre os Apóstolos e os primeiros cristãos em línguas de fogo. Ou seja, o que temos aqui é, essencialmente, uma nova entrega da Lei, um novo Monte Sinai. Assim, enquanto no Antigo Testamento Deus desce sobre o monte em fogo, no Novo, o Espírito Santo desce em fogo, o que, aliás, nos revela que não só o Pai é Deus, não só Jesus é Deus, mas também que o Espírito Santo é Deus. Ele é «o Senhor que dá a vida». É o mesmo que desceu em fogo no Monte Sinai. É revelada a divindade do Espírito Santo. Neste sentido, enquanto no Antigo Testamento a Lei foi dada em tábuas de pedra, escritas com o dedo de Deus, agora vemos o Espírito Santo a descer e habitar nos Apóstolos, para que a nova Lei, a Lei da Nova Aliança, seja escrita nos seus corações. Assim sendo, o que está a acontecer aqui no Monte Sião, em Jerusalém, é um novo Monte Sinai, um novo Pentecostes, ordenado à Nova Aliança e ao dom do Espírito Santo.

 

  1. Pentecostes como nascimento da Igreja.

     

Compreendemos, então, de que modo é que se pode conceber o Pentecostes como nascimento da Igreja. Aliás, se recuarmos um pouco, em Actos 1, Lucas diz-nos que havia 120 crentes reunidos depois da Ascensão à espera do dom do Espírito. Ora, o que é 120? É 12 vezes 10. Ou seja, o que temos aqui é uma espécie de novo Israel. No Antigo Testamento havia 12 tribos; agora, uma Igreja que será edificada sobre o fundamento dos 12 Apóstolos.

Por fim, reparemos em Actos 2, versículo 8, em que cada um dos presentes dizia: «Que se passa, então, para que cada um de nós os oiça falar na nossa língua materna?» O grego diz idia dialektō, ou seja, cada um ouvia-os no seu próprio dialecto, na sua própria língua, mesmo sendo oriundos de todas aquelas nações diferentes. Os Apóstolos receberam o dom de falar em línguas para que a Boa Nova possa ser anunciada a todas as nações do mundo, e é interessante pensar como se verifica, de certa forma, um «desfazer» da Torre de Babel: onde a humanidade tinha sido dividida pela multiplicação das línguas, é agora, pelo Espírito Santo, reunificada na Igreja.

 

Se lhes envias o teu espírito, voltam à vida.

E assim renovas a face da terra.

 

 

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