X Domingo do Tempo Comum (Ano A). Mais que Sacrifícios: Deus quer o nosso Coração

Primeira leitura: Oseias 6:3-6
Salmo: Sl 49 (50): 1.8.12-13.14-15
Segunda leitura: Romanos 4:18-25
Evangelho: Mateus: 9:9-13


As leituras deste Domingo colocam-nos diante de um tema muito importante da Sagrada Escritura: a misericórdia de Deus é mais forte do que o pecado e a fragilidade humana. Para compreendermos verdadeiramente o Evangelho deste Domingo, é necessário regressar à voz dos profetas e dos salmistas, onde já se revelava o coração misericordioso de Deus.

O Drama de Israel: Um Culto sem Coração

O livro do profeta Oseias nasce num dos períodos mais dramáticos da história de Israel. O profeta vive no século VIII antes de Cristo, no reino do Norte, pouco antes da conquista da Samaria pelos Assírios em 722 a.c. Politicamente, Israel vive uma época de instabilidade política e espiritualmente a crise é ainda mais profunda. O povo continua a praticar o culto, oferece sacrifícios no templo, cumpre exteriormente muitos ritos religiosos, mas o seu coração afastou-se da aliança com Yahweh. É precisamente neste contexto que Oseias recebe de Deus uma missão singular: anunciar que a relação entre Deus e Israel não é uma simples relação jurídica ou ritual, mas uma relação de amor esponsal.

A pregação de Oseias é marcada pela imagem do matrimónio. O próprio profeta vive uma tragédia pessoal que se torna num poderoso sermão vivo. O seu casamento com uma mulher infiel, espelha a dolorosa relação de aliança entre o Senhor e o Seu povo, Israel, que se havia corrompido espiritualmente com ídolos e alianças pagãs.

Assim,escutamos na primeira leitura:

«Procuremos conhecer o Senhor.

A sua vinda é certa como a aurora.

Virá a nós como o aguaceiro de outono,

como a chuva da primavera sobre a face da terra.

“Que farei por ti, Efraim? Que farei por ti, Judá?”

– diz o Senhor –

“O vosso amor é como o nevoeiro da manhã,

como o orvalho da madrugada, que logo se evapora.

Por isso vos castiguei por meio dos Profetas

e vos matei com palavras da minha boca;

e o meu direito resplandece como a luz.

Porque Eu quero a misericórdia e não o sacrifício,

o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos”»

Deus ama Israel como um esposo ama a sua esposa. Mesmo quando Israel se torna infiel, correndo atrás de ídolos ou alianças políticas, Deus continua a procurá-lo com amor ferido, mas perseverante. Por isso, quando ouvimos na primeira leitura: «Procuremos conhecer o Senhor», o verbo «conhecer» não significa apenas possuir uma informação intelectual acerca de Deus. Na linguagem bíblica, «conhecer» exprime intimidade, comunhão de vida, proximidade do coração. É o mesmo verbo utilizado para falar da união entre homem e mulher. O problema de Israel não era a ausência de práticas religiosas, mas a ausência desta relação viva e verdadeira com Deus. Por isso, o profeta escreve: «O vosso amor é como o nevoeiro da manhã, como o orvalho da madrugada, que logo se evapora.»

É neste contexto que surge a palavra decisiva do profeta: «Quero a misericórdia e não o sacrifício, o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos». Deus não condena os próprios sacrifícios. O Antigo Testamento está repleto de sacrifícios instituídos pelo próprio Senhor. O problema está em separar o culto da conversão do coração. Israel oferecia animais no altar enquanto permanecia na injustiça, na idolatria e na infidelidade. O profeta denuncia esta ilusão religiosa, os ritos externos não têm valor se não nascerem de uma vida e de um coração transformado.

A palavra misericórdia, que Oseias utiliza, é a tradução da palavra hebraica hesed e é extremamente rica. No Antigo Testamento, a misericórdia de Deus é muitas vezes expressa por esta palavra que significa uma fidelidade profunda, nascida de um compromisso interior. Por isso, a palavra pode também ser traduzida por «amor», «graça» ou «misericórdia», mas sempre com a ideia de fidelidade. Quando a Bíblia aplica este termo a Deus, fá-lo sobretudo no contexto da Aliança com Israel. Deus escolheu livremente o seu povo e comprometeu-Se com ele.  Contudo, Israel muitas vezes quebrava a Aliança e afastava-se de Deus. E é precisamente aí que se revela a profundidade da misericórdia, ou hesed, mesmo perante a infidelidade do povo, Deus continua a amar. A sua misericórdia mostra-se mais forte do que o pecado e mais poderosa do que a traição. (1)

Mais do que Sacrifícios

O Salmo responsorial prolonga exactamente esta mesma crítica profética. Deus fala ao povo e diz: «Não é pelos sacrifícios que Eu te repreendo». Ou seja, o problema não é a existência do culto sacrificial. O Senhor vai mais fundo: «Se tivesse fome, não to diria, porque meu é o mundo e tudo o que nele existe. Comerei porventura as carnes dos touros ou beberei o sangue dos cabritos?» O Senhor não precisa das ofertas humanas, o verdadeiro sentido do sacrifício é pedagógico e espiritual. Através de sinais visíveis, o Homem aprende a oferecer-se a si mesmo.

O salmo denuncia uma religião baseada apenas em ritos exteriores e numa lógica de «troca» com Deus, como se bastasse «cumprir» práticas religiosas para obter protecção ou favores divinos. O que Deus deseja são «sacrifícios de louvor», isto é, um coração agradecido, obediente, humilde, capaz de confiar n’Ele.

À Mesa dos Pecadores

Já no Evangelho deste Domingo lemos:
«Naquele tempo,
Jesus ia a passar,
quando viu um homem chamado Mateus,
sentado no posto de cobrança dos impostos,
e disse-lhe: “Segue-Me”.
Ele levantou-se e seguiu Jesus.
Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus,
muitos publicanos e pecadores
vieram sentar-se com Ele e os seus discípulos.
Vendo isto, os fariseus diziam aos discípulos:
“Por que motivo é que o vosso Mestre
come com os publicanos e os pecadores?”.
Jesus ouviu-os e respondeu:
“Não são os que têm saúde que precisam de médico,
mas sim os doentes.
Ide aprender o que significa:
‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’.
Porque Eu não vim chamar os justos,
mas os pecadores”».

O contexto deste Evangelho é significativo. Jesus chama Mateus, um publicano. No tempo de Jesus, os publicanos ou os cobradores de impostos eram vistos como traidores e pecadores públicos. Trabalhavam ao serviço da ocupação romana e enriqueciam frequentemente à custa da exploração do povo. Eram considerados homens impuros, indignos da convivência religiosa. Ora, Jesus não só chama Mateus, como entra em sua casa e senta-Se à mesa com outros pecadores. Na mentalidade judaica, partilhar a refeição com outro significava comunhão, sentar-se à mesa implicava reconhecimento, proximidade, amizade. Por isso, os fariseus ficam escandalizados: «Por que motivo é que o vosso Mestre come com os publicanos e os pecadores?»

É precisamente aqui que se manifesta a novidade do Evangelho. Jesus não banaliza de forma alguma o pecado, Ele vem salvar o pecador. A sua presença junto dos publicanos não significa aprovação da sua vida, mas revelação da misericórdia de Deus que procura aqueles que estão perdidos. «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes».

É muito importante perceber que Jesus não opõe misericórdia à verdade, nem misericórdia à conversão. A misericórdia verdadeira não ignora o pecado. O Senhor aproxima-Se dos pecadores precisamente para os transformar. Mateus abandona a banca dos impostos e segue Jesus. A misericórdia não confirma o homem na sua miséria, abre-lhe um novo caminho.

A Misericórdia no Centro da Vida Cristã

É também significativo que Jesus dirija estas palavras aos fariseus: «Ide aprender…». Trata-se de uma expressão usada pelos mestres judeus quando queriam corrigir uma compreensão errada da Escritura. Os fariseus conheciam a Lei, frequentavam o Templo, praticavam o culto, mas faltava-lhes uma relação pessoal com Deus. Tinham reduzido a religião a uma observância formal. O drama espiritual deles não era falta de zelo, mas falta de misericórdia.

Também nós podemos cair numa prática religiosa puramente exterior: participar em cerimónias litúrgicas, fazer orações, conservar hábitos religiosos, sem deixar que o coração seja realmente convertido. O profeta Oseias e o Jesus recordam-nos que Deus deseja acima de tudo um coração transformado e é Cristo o médico que nos transforma e cura.

Antes de se tornar evangelista, antes de escrever o Evangelho, antes de seguir Cristo, S. Mateus era apenas um pecador sentado na sua banca de impostos. O olhar de Jesus transforma a sua vida, foi o seu amor que renovou Mateus. O Cristianismo não começa pela perfeição moral do homem, mas pela iniciativa misericordiosa de Deus. A santidade nasce quando alguém se deixa encontrar e transformar por Cristo.

É principalmente nos Sacramentos que Cristo transforma o coração humano. A Eucaristia, em particular, é o verdadeiro “sacrifício de louvor” anunciado pelo salmo. Nela, Cristo oferece-Se totalmente ao Pai e associa-nos à Sua oblação. Mas esta misericórdia de Cristo toca-nos também de forma muito concreta no sacramento da Reconciliação. Na Confissão, o Senhor aproxima-se do pecador, não para o condenar, mas para o levantar, curar e lhe devolver a comunhão. Em cada absolvição o olhar misericordioso com que Jesus chamou S. Mateus renova a nossa vida.

Ao mesmo tempo, Jesus recorda à Igreja de todos os tempos que a misericórdia deve estar no centro da sua missão. A comunidade cristã não existe para formar um grupo fechado sobre si mesmo, mas para tornar visível no mundo a compaixão de Deus.

O Evangelho não é a história de homens perfeitos que alcançam Deus, mas a história de Deus que vem procurar os homens perdidos.

  1. São João Paulo II, Carta Encíclica Dives in Misericordia

Texto baseado em “Mass Readings Explained – Year A – 10th Sunday Ordinary time” de Brant Pitre e em “10th Sunday in Ordinary Time” em “The Word of the Lord – Reflections on the Sundays Mass Readings for Year A” de John Bergsma

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