Solenidade de São Pedro e São Paulo

Por: Padre Simão Cruz Ferreira



Primeira leitura: At 12, 1-11
Salmo: 33, 2-3, 4-5, 6-7, 8-9
Segunda leitura: 2 Tm 4, 6-8, 17-18

Evangelho: Mt 16, 13-19

 

A liturgia da Palavra desta solenidade de São Pedro e São Paulo não tem uma primeira leitura do Antigo Testamento que sirva de pano de fundo ao Evangelho do dia. Tanto a primeira leitura como a segunda são retiradas do Novo Testamento, oferecendo cada uma um olhar para o ministério de Pedro e Paulo, respetivamente.

O Evangelho incide sobre a figura de Pedro, dado que a conversão de Paulo é, cronologicamente, pós-evangélica. Mais do que sobre a pessoa de Pedro em si mesma, o texto centra-se na missão que lhe é confiada por Jesus, no conhecido episódio de Cesareia de Filipe em que Jesus questiona os Seus discípulos sobre a Sua identidade. São várias as referências ao Antigo Testamento nesta primeira metade do Evangelho – como os profetas mencionados ou o sentido da palavra Cristo (messias, ungido). Contudo, provavelmente o mais interessante neste âmbito seja procurar as raízes judaicas da própria missão que Jesus dá a Pedro:

Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu. (Mt 16, 18-19)

Como veremos, não se trata de uma missão qualquer, nem sequer da mesma missão que Jesus entrega aos restantes apóstolos dois capítulos mais tarde, embora bastante parecida. Segundo uma leitura que remonta aos primeiros séculos da Igreja, encontramos aqui o principal fundamento do Papado e, consequentemente, do próprio Catolicismo.

Existem quatro aspetos relevantes a destacar e a comentar nestes versículos 18 e 19 de Mateus 16:

1) Jesus muda o nome de Simão;

2) Jesus institui a Sua Igreja sobre a Rocha;

3) Jesus dá a Pedro as Chaves do Reino dos Céus;

4) Jesus dá-lhe o poder de ligar e desligar.


Um novo nome: a Pedra Fundamental

Em primeiro lugar, Jesus muda o nome de Simão, filho de João. Este nome, bastante comum entre os judeus, vem de Simeão, um dos doze filhos de Jacob. Jesus muda-o para Pedro – petrós – que, literalmente, significa pedra. Antes de procurar o sentido, é relevante relembrar que, para um judeu, o nome está associado a uma vocação ou a uma missão (facilmente nos lembramos de Abraão) e, por isso, a mudança do nome é assumida como uma revelação sobre quem Ele é aos olhos de Deus e qual o seu papel na História da Salvação.

Segundo, Jesus diz: Tu és Petrós e sobre esta Petra edificarei a minha Igreja. Notamos facilmente que petra e petrós não são exatamente a mesma palavra no grego: uma está no masculino e outra no feminino. Esta diferença não deve ser exagerada. Muitos estudiosos consideram que se deve à necessidade gramatical de transformar um substantivo feminino num nome próprio masculino. Ainda assim, alguns argumentam que Jesus não está a edificar sobre Simão, mas que a petra a que se está a referir é Ele mesmo: Ele é a Pedra angular sobre a qual constrói a Sua Igreja.

O argumento mais forte para compreender esta passagem encontra-se, porém, no provável original aramaico das palavras de Jesus. Em aramaico existe uma única palavra para pedra: Kefas. Assim, a partir do aramaico, Jesus teria dito: «Tu és Kefas e sobre esta Kefas edificarei a minha Igreja». Dado não haver qualquer referência anterior a alguém ter o nome Pétros, parece claro que Jesus está a dar a Pedro o nome «rocha» e a indicar que o Apóstolo é o fundamento da Sua assembleia, da Sua Igreja.

Sabemos que o Templo foi construído no Monte Moriah, o monte da famosa ‘Aqedah (atadura) de Isaac (Gn 22), sobre uma grande pedra chamada 'eben shetiyyah («pedra fundamental»). O Templo era visto como o lugar da presença de Deus e, segundo a tradição judaica, essa pedra selava um poço que descia ao mundo dos mortos, simbolizando o domínio de Deus sobre o mal e fazendo do Templo o centro do cosmos, ponto de ligação entre o Céu e o Hades. A partir dos escritos rabínicos percebemos que essa pedra se situava no Santo dos Santos, no lugar onde repousara a Arca da Aliança antes do exílio da Babilónia. Na época de Jesus, como a Arca já lá não se encontrava, o Sumo Sacerdote aspergia o sangue do Dia da Expiação sobre a própria pedra.

À luz destas tradições judaicas, vários autores têm sugerido uma relação simbólica entre a pedra fundamental do Templo e Pedro. Neste contexto, Jesus apresenta Pedro como fundamento do novo Templo: assim como o Templo da Antiga Aliança estava construído sobre uma pedra firme, também a Igreja da Nova Aliança é edificada sobre Pedro e, por isso, os poderes da morte e do erro não prevalecerão contra ela.


O chefe da Casa de David

O terceiro aspeto é a entrega a Pedro das chaves do Reino dos céus. Isto não significa que é Pedro que está à porta do Céu a deixar, ou não, alguém entrar, como tantas vezes vemos caricaturado. A imagem das chaves remete antes para Isaías 22, 19-23, a única passagem do Antigo Testamento em que encontramos a entrega simbólica de uma chave como sinal de autoridade:

Vou depor-te do teu cargo, destituir-te do teu posto. Naquele dia, chamarei o meu servo Eliaquim, filho de Hilquias. Vesti-lo-ei com a tua túnica, cingi-lo-ei com a tua faixa, porei nas suas mãos o teu poder; será como pai para os habitantes de Jerusalém, para o povo de Judá. Porei sobre os seus ombros a chave do palácio de David: o que ele abrir ninguém fechará, o que ele fechar ninguém abrirá. Fixá-lo-ei como prego em lugar firme, será como um trono de glória para a casa de seu pai.

Isaías descreve, cerca de 800 anos antes de Jesus, a estrutura do reino de David, onde, abaixo do rei, existia a figura do 'al bayith (o «chefe da casa»), uma espécie de primeiro-ministro com autoridade sobre a casa de David. Em Isaías 22, esse cargo é retirado a um homem e entregue a outro, mostrando que se trata de uma função com sucessão, que não termina com a morte do seu ocupante, mas é transmitida ao longo das gerações. Este responsável recebia as chaves da casa de David, símbolo da autoridade real delegada pelo rei: tal como alguém que recebe as chaves de uma casa para a governar na ausência do dono, este homem governava, liderava e controlava o acesso ao rei quando este estava ausente ou doente. Por isso, participava também da paternidade do rei, adquirindo um papel paternal para com o povo. O intendente real trazia as chaves como sinal do seu ofício, sendo-lhe atribuída a autoridade de «abrir e fechar» (Is 22,22).

Por último, Jesus dá a Pedro o poder de ligar e desligar. Embora Mateus utilize aqui uma fórmula diferente da de Isaías («ligar e desligar» em vez de «abrir e fechar»), ambas exprimem uma autoridade efectiva exercida em nome de Deus. Estes eram os termos utilizados pelos rabinos para se referirem ao ensino oficial. No tempo de Jesus, este poder, de ligar e desligar, estava juridicamente vinculado ao Sinédrio. Esta autoridade significava tomar decisões finais, isto é, vinculativas, sobre assuntos religiosos: se alguém ligava algo, todos tinham de o seguir ou de o acreditar. O próprio Jesus critica o uso que os fariseus faziam deste ligar e desligar quando, em Mateus 23, os acusa de impor fardos pesados vinculativos à multidão.

Ora, Jesus, no Evangelho desta solenidade, não está a fazer outra coisa senão a fazer de Pedro o chefe da casa, o primeiro ministro do Reino de Deus. No Novo Testamento, Jesus é o rei messiânico da linhagem de David que possui «a chave de David» e exerce autoridade plena sobre o Seu reino (Ap 3,7). Ao mesmo tempo, Ele eleva Pedro a Seu chefe da casa, confiando-lhe «as chaves do Reino», investindo-o, assim, com autoridade para ligar e desligar em assuntos relativos ao Seu reino na terra.

Isso significa que a nova missão de Pedro assume os mesmos contornos do cargo do 'al bayith. Em primeiro lugar, Pedro é o segundo na hierarquia, logo depois do Rei Jesus. Ademais, Pedro recebe as chaves da autoridade real sobre a Igreja, ou seja, tem poder sobre toda a Igreja. Como o 'al bayith, também Pedro é chamado a agir como um pai para a Igreja. O mesmo o comprova a tradição, desde cedo na Igreja Antiga, de chamar ao Sucessor de Pedro, o Bispo de Roma, Papa (pai). Tal como as decisões do Sinédrio, as de Pedro passam a ser vinculativas, tal como as de um rabino supremo: o que quer que o Apóstolo vincule na terra, fica vinculado nos céus.


Pedro e os sucessores

O magistério exprime a autoridade dada a Pedro para confirmar os cristãos na fé, indicando em que devem ou não acreditar e como devem agir em questões de fé e moral, pela assistência divina prometida. Ao longo dos séculos, a reflexão teológica procurou compreender o alcance dessa assistência divina, chegando à formulação da doutrina da infalibilidade papal em determinadas circunstâncias. Assim, a autoridade de Pedro permite à Igreja falar com clareza e unidade nas questões morais, ajudando os fiéis a discernir o bem do mal através da voz do sucessor de Pedro.

É significativo como, em Mateus 18, Jesus dá o poder de ligar e desligar aos restantes apóstolos. Todos os bispos, como sucessores dos Apóstolos, participam desta missão de ensinar e governar o povo de Deus. Contudo, apenas a Pedro são entregues as chaves, sinal da missão particular que lhe é confiada no seio do colégio apostólico.

Quando dizemos Pedro dizemos, naturalmente também, todos os seus legítimos sucessores. Porque, se Jesus está a fazer de Pedro este primeiro-ministro do Reino, então, de acordo com Isaías 22, esta autoridade não se esgota na pessoa do Apóstolo, mas reveste-se de uma dimensão institucional destinada a perdurar na vida da Igreja. É um cargo e não o poder de um homem só. Quando Pedro morre, o cargo, a autoridade, o poder, o papel de pai e as chaves são passadas para o seu sucessor, o Bispo de Roma seguinte.

Deixámos aqui o fundamento bíblico do Papado, profundamente enraizado na vontade e na intenção do próprio Jesus e na Sua alusão a Isaías 22. Dúvidas houvessem de que o papado não é uma invenção medieval, podemos recorrer a Santo Ireneu que, em 180 d.C., nos diz que a maneira que temos de conhecer a verdade da fé (ou a verdadeira fé) da Igreja é por esta ter sido transmitida pelos sucessores de Pedro (até à data já tinham sido 12), em Roma. Já no final do século II era sabido em Lyon que a Igreja de Roma tinha primazia entre todas as Igrejas e que o que o bispo de Roma declarava em matéria de fé deveria ser aceite por todos os cristãos.

O papel de Pedro de manter a casa unida e liderar enquanto o rei está fora faz ecoar o que o bom samaritano diz ao estalajadeiro: No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: «Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.» (Lc 10, 35). Os Padres da Igreja interpretam este estalajadeiro como a Igreja. A partir desta teologia petrina do 'al bayith, podemos dizer que o estalajadeiro é, em primeiro lugar, Pedro, o pai que cuida de nós até que o rei volte. É uma grande bênção Jesus ter-nos deixado ao cuidado do Papado, por ter confiado esta casa a Pedro e aos seus sucessores.

Texto baseado na palestra «Jesus and the Jewish Roots of the Papacy», de Brant Pitre.

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