XVII Domingo Tempo Comum (Ano A). Um tesouro escondido

Por: Mafalda Moncada Cordeiro

Primeira Leitura: 1 Reis 3:5, 7-12
Salmo: 118(119), 57, 72, 76-77, 127-128, 129-130
Segunda Leitura: Romanos 8, 28-30
Evangelho: Mateus 13, 44-52

Neste Domingo, acompanhamos Jesus e os discípulos no regresso a casa, depois de uma pregação à beira-mar marcada por parábolas sobre o Reino dos Céus. Já a sós, os discípulos interrogam Jesus sobre o seu significado e, depois de os esclarecer, Jesus propõe-lhes mais três parábolas sobre o mesmo tema. São Mateus relata:

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola. O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isto?» Eles responderam-Lhe: «Entendemos». Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».


1 – Estar à espera ou procurar?

«O reino dos Céus é como um tesouro escondido num campo», diz-nos a primeira parábola. Jesus recorre a uma história familiar, com a qual muitos já sonhámos: encontrar um tesouro tão valioso que possa transformar uma vida. Descobrir um tesouro implica não só que ele esteja escondido, mas também que exista um olhar atento para o reconhecer. Na segunda parábola, esta ideia é reforçada: um negociante procura pérolas preciosas, entre tantas de má qualidade. Também na nossa vida há «pérolas» que disputam o coração, prometendo uma felicidade que não podem oferecer. Ao contrário do homem que encontra o tesouro inesperadamente, o negociante procura activamente. O encontro com o Reino pode, assim, acontecer de modos distintos, mas exige sempre um coração preparado. O Reino dos Céus é como esta pérola ou este tesouro: permanece escondido e a sua busca é absolutamente essencial para o alcançar.

Coloquemo-nos agora no lugar destes homens. O que faria a maior parte de nós se encontrasse um tesouro escondido num campo? Talvez o levasse imediatamente para casa, clandestinamente. E se encontrássemos uma pérola preciosa? Estaríamos dispostos a vender tudo por algo que, aparentemente, não satisfaz nenhuma necessidade prática?

Estes dois homens surpreendem-nos. O primeiro volta a esconder o tesouro e só o toma para si depois de comprar o campo. Este gesto revela que, quando há um encontro pessoal com o Reino, com o próprio Cristo, nasce o desejo de guardar esse dom precioso e de o proteger da corrupção. Também o negociante nos surpreende. Habituado a um olhar calculista, vende tudo quanto possui por uma única pérola. Aos olhos do mundo, parece loucura. Mas ele reconhece nela um valor que outros talvez não consigam ver e esse olhar encontrado muda tudo. Estas parábolas convidam-nos a não viver prisioneiros do olhar dos outros. Para quem encontrou esta pérola, tudo o resto passa para segundo plano.

Em ambos os casos, o efeito é o mesmo: a entrega total. Sobre o primeiro homem, Jesus sublinha que esta entrega nasce da alegria. Não é a obrigação que o leva a vender tudo, é a alegria do encontro que despoleta a entrega total. A renúncia não é o preço da descoberta, é a consequência da felicidade de ter encontrado um bem incomparavelmente maior. A este propósito, São Josemaria Escrivá escreve: «O tesouro. Imaginai a alegria imensa do afortunado que o encontra. Acabaram os apertos, as angústias. Vende tudo o que possui e compra aquele campo. Todo o seu coração pulsa aí: onde esconde a sua riqueza.» (Amigos de Deus, n.º 254)

Sobre a segunda parábola, Santo Agostinho diz-nos: no meio de muitas pérolas, o negociante procura entre várias e encontra apenas uma preciosa; no meio de homens bons, encontra apenas um sem pecado: Jesus Cristo. Quando procura o que deve fazer, encontra o amor ao próximo, no qual tudo está contido. E o preço desta pérola inestimável? Somos nós mesmos, é a nossa libertação dos bens materiais. Só assim nos podemos entregar inteiramente: não porque valhamos tanto quanto ela, mas porque não podemos dar mais.

O verdadeiro tesouro é encontrar o Reino dos Céus: encontrar Cristo e descobrir o Seu amor. É um tesouro ao nosso alcance, especialmente nas Escrituras, tantas vezes à espera de serem revisitadas. Quando este encontro acontece, renascemos e descobrimos aquilo que dá sabor e luz a tudo, inclusive às dificuldades. O Reino ocupa então o primeiro lugar no coração e torna-se natural renunciar ao que antes parecia indispensável. Se procurarmos e guardarmos esse encontro, permanecemos fascinados e apaixonados por Ele.


2 – Uma pesca com séculos

«O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes», diz-nos a terceira parábola. Uma imagem particularmente familiar aos Apóstolos pescadores e ao trabalho na natureza. No tempo de Jesus, usavam-se redes de cerco circulares que, lançadas ao mar, reuniam e capturavam indiscriminadamente diferentes peixes. Só depois, em terra, se fazia a selecção: guardavam-se uns para vender ou consumir e rejeitavam-se os que não tinham valor. É precisamente esta separação final que Jesus quer sublinhar. O Reino dos Céus é como uma rede lançada pelos Apóstolos e pelos seus sucessores: reúne santos e pecadores. Ao longo dos séculos, esta rede continua a ser lançada ao mundo, congregando mulheres e homens de toda a condição, até à vinda do Senhor. Esta realidade mista existe porque o Juízo Final, o tempo da separação definitiva, pertence a Deus e realizar-se-á apenas no tempo por Ele estabelecido. Então, os anjos separarão os justos dos injustos, que irão ser condenados à eterna separação de Deus, o Inferno. Jesus fala-nos desta realidade não para nos esmagar pelo medo, mas porque nos ama e deseja que todos se salvem e exerçam a sua liberdade.

Nas três parábolas, Jesus apresenta-nos um Reino dos Céus escondido, que cresce silenciosamente, misturado com ervas daninhas, pérolas e peixe de menor qualidade. Até ao fim dos tempos, o bem e o mal coexistirão, e a separação definitiva caberá apenas a Deus. Ao longo da História da Igreja, esta realidade é evidente. Ainda hoje, muitos se afastam da Igreja devido ao escândalo provocado pelos pecados de alguns dos seus membros. Mas Jesus nunca prometeu uma comunidade composta apenas por santos; pelo contrário, advertiu-nos de que, até ao fim, justos e pecadores caminhariam lado a lado. É preciso sabedoria e fé para encontrar a Igreja militante, o Reino dos Céus na terra, apesar de todas as suas feridas. A última parábola surge, assim, como conclusão natural das duas primeiras. Se o amor de Cristo é o tesouro e a pérola de valor incalculável, então teremos também de prestar contas do modo como O procuramos e amamos nesta vida.

Depois destas parábolas, Jesus procura o entendimento dos discípulos, e conclui: «Por isso todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas.» Jesus chama os discípulos a tornarem-se verdadeiros escribas do Reino: homens capazes de escutar, estudar e interpretar as Escrituras à luz do mistério que n’Ele se cumpre. Convida-os, e a nós também, a contemplar como o Antigo Testamento se cumpre no Novo, e como o Novo estava já escondido no Antigo. Compreender e anunciar a Boa Nova exige, por isso, uma fé bem formada, recebida com fidelidade e transmitida em continuidade. 



3 – Crescer em sabedoria

Voltemos então ao Antigo Testamento para compreender como podemos ter uma fé compreendida e encontrar e reconhecer o rosto de Cristo. Na primeira leitura, retirada do Primeiro Livros dos Reis, lemos:

Naqueles dias, o Senhor apareceu em sonhos a Salomão durante a noite e disse-lhe: «Pede o que quiseres». Salomão respondeu: «Senhor, meu Deus, Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David e eu sou muito novo e não sei como proceder. Este vosso servo está no meio do povo escolhido, um povo imenso, inumerável, que não se pode contar nem calcular. Dai, portanto, ao vosso servo um coração inteligente, para governar o vosso povo, para saber distinguir o bem do mal; pois, quem poderia governar este vosso povo tão numeroso?» Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão e disse-lhe: «Porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti».

Neste belíssimo episódio, encontramos um jovem Salomão, recém ungido rei, diante de um pedido extraordinário de Deus. Podendo pedir poder, riquezas ou longa vida, Salomão responde de modo surpreendente: com humildade, pede apenas a capacidade de discernir entre o bem e o mal. Reconhece a sua limitação e, em vez de querer controlar tudo ou procurar a sua glória, compreende que a missão recebida é, antes de mais, uma responsabilidade diante Deus. Também nós precisamos desta sabedoria para compreender os mistérios do Reino e receber a graça de escolher o bem.

Porque Salomão pediu sabedoria em vez de poder, Deus concede-lhe não só sabedoria, como o que não pediu: riquezas e honra. Isto recorda-nos as palavras de Jesus no Sermão da Montanha (Mt 6:33): «Procurai primeiro o Seu reino e a Sua justiça e todas as coisas serão dadas também». Salomão coloca a vontade de Deus à frente de tudo, e Deus honra-o por isso.

Para encontrar o tesouro escondido e reconhecer a pérola preciosa, é necessária a sabedoria que Salomão humildemente pede a Deus. É ela que nos permite viver o Reino dos Céus, guardar a nossa fé com vigilância e perseverança e acolher plenamente o dom que Deus nos oferece.

Por fim, o Salmo deste Domingo enfatiza a alegria de encontrar a própria face de Cristo, nas Escrituras: «Quanto amo, Senhor, a vossa lei!». O verdadeiro tesouro, para o salmista, não são bens materiais, é a Lei de Deus: «Eu amo os vossos mandamentos, mais que o ouro, o ouro mais fino.» Amar a Lei, não significa apenas conhecê-la, mas conformar a nossa vida com ela; implica recusar a falsidade e orientar o coração para a Verdade.

Tudo isto nos serve de interpelação. Olhamos para as Escrituras como um tesouro mais precioso do que o ouro? Se verdadeiramente amamos a Palavra de Deus, ela deve ocupar um lugar real no nosso quotidiano. Somos chamados a ler a Bíblia todos os dias, a meditá-la e a deixar que ilumine a nossa vida, não por obrigação, mas por amor. É acolhendo a Palavra de Deus e crescendo nesta sabedoria que encontramos a verdadeira paz e alegria.



4 - Quais os desafios para nós?

As leituras deste Domingo deixam-nos desafios concretos.

Primeiro, como Salomão, somos chamados a procurar antes de tudo o Reino de Deus e a pedir a sabedoria necessária para O reconhecer. Quando o Reino ocupa o primeiro lugar, tudo o resto encontra o seu devido lugar.

Segundo, somos chamados a manter o coração desperto para descobrir Cristo no meio de tantas falsas promessas de felicidade. E, à luz da parábola da rede, a viver com autenticidade diante de Deus, conscientes de que um dia prestaremos contas do modo como correspondemos ao Seu amor.

Por fim, somos convidados a cultivar uma fé bem compreendida. Jesus convida-nos a ser escribas do Reino: homens e mulheres que estudam, meditam e vivem as Escrituras, sabendo unir fielmente o Antigo e o Novo. Só quem primeiro encontra o tesouro da Palavra poderá anunciá-lo aos outros com verdade e alegria.

Texto baseado em Mass Readings Explained – Year A – 27th Sunday Ordinary time de Brant Pitre e em «12th Sunday in Ordinary Time», em The Word of the Lord – Reflections on the Sundays Mass Readings for Year A de John Bergsman e em Catena Aurea – Evangelho de São Mateus.

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