XIX Domingo do Tempo Comum (Ano A). Entre o mar revolto e a brisa suave

Por: Duarte Azevedo Mendes

Primeira leitura: 1 Reis 19, 9a, 11-13a

Salmo: 85 (84), 9ab-10, 11-12, 13-14

Segunda leitura: Romanos 9, 1-5

Evangelho: Mateus 14, 22-33

Neste Domingo, um tema perpassa as leituras: manifestações de Deus, teofanias. Com a famosa passagem em que Jesus caminha sobre as águas, escutamos no Evangelho como os discípulos professam a sua fé no Mestre. Relata-nos São Mateus:

Depois de ter saciado a fome à multidão, Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-l’O na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão. Logo que a despediu, subiu a um monte, para orar a sós. Ao cair da tarde, estava ali sozinho. O barco ia já no meio do mar, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário. Na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se, pensando que fosse um fantasma. E gritaram cheios de medo. Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: «Tende confiança. Sou Eu. Não temais». Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas». «Vem!» – disse Jesus. Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas, para ir ter com Jesus. Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se, gritou: «Salva-me, Senhor!». Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o. Depois disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?». Logo que subiram para o barco, o vento amainou. Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus, e disseram-Lhe: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».

Um sobressalto próximo da madrugada


O relato começa no preciso ponto no qual a liturgia nos havia deixado no Domingo passado, a multiplicação dos pães e dos peixes. Terminada a refeição, nas margens do Mar da Galileia, Jesus envia os Seus discípulos à Sua frente para a outra margem, enquanto envia a multidão de novo para as suas casas e, como tantas vezes aconteceu e nos foi relatado, isola-Se num ermo para dialogar com o Pai.

Os discípulos, entretanto, no barco fustigado pelas ondas, navegam nas águas do Mar da Galileia contra o vento. Aproximando-se o raiar da madrugada – a quarta vigília da noite corresponde ao período entre as 3 e as 6 da manhã –, quando no horizonte já se começa a entrever o princípio do novo dia, sobressaltam-se.

Navegar de noite era, para vários dos discípulos, pescadores por profissão, algo que já haviam repetido dezenas de vezes. O mar seria, certamente, por eles respeitado, mas, habitualmente, não temido, e o facto de estar revolto não lhes traria preocupação de maior.

No entanto, depois de várias horas de viagem (recordemos que haviam saído ainda à luz do dia anterior de junto de Jesus), vêem um vulto aproximar-se, que interpretam como sendo um fantasma, ou um espírito, uma presença sobrenatural. E a primeira palavra que Jesus lhes dirige é um convite à calma: «Tende confiança. […] Não temais.» Este é o convite que se repete em cada manifestação do sobrenatural: são, por exemplo, as primeiras palavras de Jesus Ressuscitado às santas mulheres no relato evangélico de São Mateus e São Marcos, e as do Anjo de Portugal, na Primavera de 1916, e as de Nossa Senhora, em Maio de 1917, aos Pastorinhos de Fátima.

De seguida, notemos as outras palavras que Jesus dirige aos Apóstolos: «Sou Eu.» Ora, no grego, a expressão usada é egō eimi, a mesma expressão usada no Evangelho segundo São João nas passagens em que Jesus se identifica como Deus, usando a mesma formulação que Deus havia usado para se identificar a Moisés no Monte Sinai no episódio da sarça ardente. Nos Evangelhos sinópticos não encontramos paralelismos para estas passagens do Evangelho segundo São João em que Jesus se identifica muito claramente como Deus. No entanto, a expressão é usada por São Mateus, São Marcos e São João neste episódio. Dir-se-á, porventura, que Jesus apenas se está a identificar aos seus conhecidos, tal como nós já teremos várias vezes feito e, embora a expressão possa simplesmente significar um «sou eu», muitos estudiosos reconhecem que, neste contexto de manifestação divina, dificilmente a referência deixa de evocar o Nome com que Deus Se revelou a Moisés.

Um mar que se acalma


Depois do episódio em que Pedro caminha sobre as águas, o Evangelista continua o relato desta teofania. Jesus que, como nova Luz, lhes aparece ao aproximar da aurora, acalma agora as águas revoltas que os rodeiam. Na tradição bíblica, o mar simboliza frequentemente as forças do caos e do mal (cf. Jb 7,12), sobre o qual apenas Deus exerce domínio (cf. Jn 2, 3-11). Nesta passagem, Jesus revela-se, por isso, divino quando o acalma.

E o que se sucede? «Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus, e disseram-Lhe: “Tu és verdadeiramente o Filho de Deus”.»

Ora, no contexto do século I d. C., prostrar-se diante de alguém podia, simplesmente, ser um acto de homenagem, um gesto de respeitosa reverência, perante um rei. São Mateus, no entanto, usa este verbo apenas como expressão de adoração do divino, como nas tentações a Jesus no deserto em que o diabo, mostrando-Lhe os reinos do mundo, Lhe diz «Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares» (Mt 4, 9).

E se dúvidas houvesse em relação à reacção dos discípulos, a exclamação que acompanha o rosto por terra reforça ainda mais esta ideia. A expressão «Filho de Deus» havia primeiro surgido no contexto da realeza davídica, representando o filho de David, futuro rei de Israel. Uma vez ungido rei na sua coroação, tornava-se filho adoptivo de Deus e soberano do povo escolhido (2 Sm 7). Neste episódio no Mar da Galileia, contudo, a combinação do gesto de adoração com esta expressão indica-nos que os Apóstolos começam a entender que Jesus é o Ungido derradeiro, o Messias de Deus.

Nesta passagem assistimos, assim, a uma manifestação de Deus, a uma teofania, a que os discípulos respondem com o reconhecimento da natureza divina do seu Mestre, professando a sua fé.

Uma voz numa brisa suave


A primeira leitura neste Domingo é retirada do Primeiro Livro dos Reis. Este livro relata a História do Reino de David durante o reinado de seu filho Salomão e a subsequente divisão do reino em dois: Israel e Judá. Nesta segunda parte do livro surge o protagonista da passagem que escutamos: o Profeta Elias. Narra-se:

Naqueles dias, o profeta Elias chegou ao monte de Deus, o Horeb, e passou a noite numa gruta. O Senhor dirigiu-lhe a palavra, dizendo: «Sai e permanece no monte à espera do Senhor». Então, o Senhor passou. Diante d’Ele, uma forte rajada de vento fendia as montanhas e quebrava os rochedos; mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento, sentiu-se um terramoto; mas o Senhor não estava no terramoto. Depois do terramoto, acendeu-se um fogo; mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se uma ligeira brisa. Quando a ouviu, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e ficou à entrada da gruta.

Esta passagem narra uma outra teofania. Elias encontra-se no monte Horeb em fuga da perseguição que se montou contra ele.

Elias havia enfrentado, no Monte Carmelo, o culto a Baal, a divindade cananeia que se havia difundido no Reino de Israel. Ao demonstrar de forma inequívoca que Baal era um falso deus e que só o Senhor é Deus, conduziu à execução dos sacerdotes de Baal (1 Reis 18). Elias esperava que esta demonstração levasse a uma conversão em massa do povo, mas, em contrapartida, é ameaçado de morte por Jezabel, mulher do rei Acab, e acaba a fugir para salvar a sua vida (1 Reis 19, 1-3).

Durante a fuga, e depois de Deus se ter manifestado de forma tão grandiosa no confronto com os sacerdotes de Baal, o profeta desmoraliza, pedindo a Deus a morte. Porém, um anjo alimenta-o, incentiva-o a continuar o caminho e Elias chega ao monte Horeb.

Ora, o monte Horeb é o «monte de Deus». Aí, no Sinai, Deus S e havia manifestado pela primeira vez a Moisés na sarça ardente e revelado o Seu santo nome: «Eu Sou». Aí havia Deus firmado a Sua Aliança com o povo, dando-lhes os Mandamentos como expressão desta mesma Aliança. Aí, Deus, apesar de ter sido posto à prova pelo povo, faz brotar água da rocha como sinal da Sua fidelidade. Era, portanto, um lugar teofânico, um lugar de encontro entre Deus e o Seu povo.

Aí, nesse monte, encontramos, então, Elias que, desmoralizado, questionará Deus sobre a sua vocação profética de apelo à conversão. Imaginemo-lo numa gruta, cansado fisica e espiritualmente, quando Deus lhe comunica que esteja atento, pois Ele próprio por ali vai passar.

Seguem-se, então, três fenómenos que se associavam a manifestações de Deus: vento, o tremer da terra e fogo. Contudo, em nenhum destes grandes fenómenos Elias pressente a presença do Senhor.

Por último, «ouviu-se uma ligeira brisa». E, repare-se, uma brisa ouve-se?

No original hebraico, a expressão usada para este fenómeno (qōl demāmāh daqqāh) é ainda mais paradoxal. Transmite uma ideia de uma voz de silêncio subtil. Esta é, portanto, uma forma de Deus se manifestar radicalmente diferente do que havia feito no Monte Carmelo. Mas é desta forma, num suavíssimo murmúrio levado por uma brisa, que Deus escolhe fazê-lo, obrigando o Profeta a uma escuta atenta.

Elias manifestará então o seu desânimo ao Senhor, que o reconfirmará na sua vocação profética, restaurando-lhe a coragem para enfrentar as provações.

Deus continua a manifestar-Se ao Seu povo, não apenas em acontecimentos extraordinários e grandes experiências de fé. No silêncio da oração, na adoração do sacramento eucarístico, também aí Se manifesta o Senhor. Como Elias e como os Apóstolos, também nós somos chamados a reconhecer a Sua presença e a responder-Lhe com fé. Faremos nossa a profissão de fé dos Apóstolos: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus»?

Texto baseado em «Mass Readings Explained – Year A – 19th Sunday Ordinary time» de Brant Pitre e em «19th Sunday in Ordinary Time» em The Word of the Lord – Reflections on the Sundays Mass Readings for Year A de John Bergsma.

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