Domingo da Misericórdia

Por: Catarina Cid

Primeira Leitura: Actos 2:42-47 
Salmo: 118:2-4, 13-15, 22-24
Segunda Leitura: 1 Pedro 1:3-9
Evangelho: João 20:19-31

 

Estamos no coração do Tempo Pascal: neste II Domingo da Páscoa, o Domingo da Misericórdia, instituído por São João Paulo II, a Igreja propõe-nos todos os anos o Evangelho de São João, que narra a aparição de Cristo ressuscitado aos discípulos reunidos no Cenáculo e, oito dias depois, o encontro com S. Tomé. Esta repetição não é um simples detalhe litúrgico; revela que a Ressurreição não pertence apenas ao passado, mas permanece presença viva que transforma a Igreja, comunicando-lhe paz, fé e perdão. S. João começa por relatar:

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

Estando todos reunidos no Cenáculo, meio perdidos pela morte do Seu amado Mestre e enfraquecidos pelo medo, Jesus aparece no meio dos Apóstolos. Imagine-se o espanto! Ao nascer do sol, nesse mesmo dia, as mulheres tinham visto o túmulo vazio e correram a dar a boa nova. Não O vendo, acreditaram. No entanto, alguns ainda sucumbiam ao peso dos sentidos que não lhes permitia esquecerem o que tinham visto, ainda que à distância, naquela terrível sexta-feira. Outros mantinham-se agarrados à memória das promessas que tinham ouvido a Jesus e, intimamente, tinham em si uma certeza de que aquele não era tempo de fim, mas de princípio, era tempo de crer que algo mais iria acontecer. E aconteceu!  Ali está Ele, tal como antes, no meio dos Seus escolhidos. Jesus ressuscitou como tinha dito.

Estando as portas fechadas, Jesus aparece e saúda-os, cheio de amor!

De coração humilhado e contrito por terem cedido ao medo que os fizera abandonar o seu Senhor no dia da Sua dolorosíssima Paixão, “ouçamos” as primeiras palavras que Jesus lhes dirige: «A paz esteja convosco.» Estas palavras foram um bálsamo de paz que veio do coração trespassado de Jesus e que devolveu àqueles homens a vida e a liberdade perdida pela culpa. Ouçamo-las nós também! Jesus toca, com a Sua misericórdia, as feridas provocadas pelo pecado e devolve a vida e a luz onde havia morte e escuridão. Jesus ressuscita-os com Ele.

O Senhor teve pressa de levar a paz aos Seus discípulos, naquele mesmo dia que toda a Criação aguardava, desde o pecado de Adão. Teve pressa de fazer novas todas as coisas, de reconciliar o mundo consigo.

Num gesto novo, Jesus soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos.» Na paz de Jesus, os discípulos recebem o mandato de continuar a missão do seu Mestre e é-lhes concedido o mesmo poder divino que Jesus exerceu durante a Sua vida pública, o poder de perdoar os pecados.

Está bem claro, neste Evangelho, que, ao querer reconciliar os Apóstolos consigo, Jesus quer também que essa reconciliação se estenda a toda a Humanidade e que a Sua Ressurreição aconteça nos corações de todos os Homens, até ao fim dos tempos. Cristo quis que a graça do perdão ficasse indelevelmente presente na Sua Igreja, como sinal de esperança, como fonte de liberdade, de vida nova e de paz. No sacramento da Reconciliação, a paz proclamada por Cristo torna-se sinal visível de uma graça invisível.

Deus quis que o Seu amor permanecesse para sempre, de forma concreta, na vida de cada Homem. Deus quis que a Sua Misericórdia, fonte inesgotável de perdão, fosse a expressão máxima do Seu Amor por nós e que a Ressurreição fosse, para o mundo, sinal inequívoco da vitória de Cristo sobre a morte e sobre as trevas da culpa, que arrancam da alma a Luz que irradia do selo de Deus. O Amor é mais forte do que a morte!

O Evangelho prossegue com a figura de S. Tomé, ausente no primeiro encontro e incapaz de acreditar apenas pelo testemunho dos outros. S. João relata assim:

Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!». Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

Passada uma semana da Sua Ressurreição, Jesus volta a aparecer no meio deles e, olhando profundamente nos olhos de Tomé, aquele que tinha duvidado, concede-lhe que comprove com os sentidos, a verdade que a sua inteligência não consegue abarcar: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente.»

Tomé, com o coração pesado por não ter crido, cai prostrado aos pés de Jesus, perdido de amor, num grito de alma sussurrado, que trespassou os corações dos que ali estavam e que ecoa e continua a trespassar, até hoje, os corações dos que experimentam Jesus nas suas vidas: «Meu Senhor e meu Deus

Parece que João esperou por este momento, para fechar o seu relato. A partir daqui, pouco mais interessava contar. S. Tomé resume em quatro palavras toda a vida de Jesus e sela, definitivamente, a Verdade e os Mistérios da Encarnação, Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Jesus é Deus! Quantos corações, ao contemplarem, Jesus Sacramentado na Hóstia Consagrada, se socorrem desta oração de Tomé para que a sua alma caia imediatamente em adoração, diante de tão grande Amor, de tão grande mistério?

«Felizes os que acreditam sem terem visto.» Felizes somos nós, Senhor! Deixaste-nos esta bem-aventurança, esta graça especial de podermos ter em nossas almas, uma fé igual à de Tomé, que vendo, acreditou.

No Salmo Responsorial repetimos o refrão «Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, porque é eterna a sua misericórdia». Do coração emergem impulsos de louvor e a gratidão apodera-se da alma, por cantarmos com David, as maravilhas de Deus, a expressão máxima do Seu amor por nós, revelada na Cruz e na Ressurreição. Deus quer nesta Páscoa, como em todas as Páscoas e sempre, fazer novas todas as coisas, pela Sua infinita Misericórdia.

Em suma, neste Domingo lembramos que a Misericórdia é a razão da vinda de Cristo a este mundo, o cerne da missão do Messias. Cristo oferece-nos paz e liberdade, vida nova, salvação. Abre os Seus braços e chama-nos para que bebamos da fonte de água-viva que brota do Seu coração Misericordioso. Convida-nos a confiar no poder do Seu amor, infinitamente maior do que o nosso pecado. A Misericórdia Divina é o centro do Evangelho e de toda a vida da Igreja. Como Tomé quis pôr o dedo nas chagas de Jesus para poder crer que Ele tinha ressuscitado verdadeiramente, aproximemo-nos também d’Ele na Confissão e seremos nós a comprovar que Jesus está vivo, ao vermos as nossas feridas tocadas e curadas por Ele. A nossa alma, com fé forte, gratidão e assombro, confessará então, como Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!”

Foi São João Paulo II quem, iluminado por esta visão profundamente evangélica, instituiu para toda a Igreja o Domingo da Divina Misericórdia. Para ele, a Misericórdia constitui o conteúdo central da mensagem messiânica de Cristo e a força que sustenta a sua missão salvífica. Num mundo marcado por feridas, violência e culpa, anunciar a misericórdia significa oferecer a esperança mais necessária: ninguém está definitivamente perdido quando se abre ao amor de Deus.

Texto baseado em “Mass Readings Explained – Year A – 2nd Sunday of Easter” por Brant Pitre

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