IV Domingo do Tempo Comum. As bem-aventuranças

Por: Mafalda Moncada Cordeiro

IV Domingo do Tempo Comum.
As bem-aventuranças


Primeira Leitura:
Sofonias 2:3; 3:12-13
Salmo: 145 (146): 7, 8-9a, 9bc-10
Segunda Leitura: Coríntios 1:26-31
Evangelho: Mateus 5:1-12a


Neste Domingo, subimos com Jesus à montanha para escutar as oito bem-aventuranças que assinalam o início do mais célebre sermão do Evangelho de São Mateus, ao qual são dedicados seis domingos. Santo Agostinho foi o primeiro a escrever um livro sobre o Sermão da Montanha, no final do século IV d.C., e descreveu-o como um guia para a moral cristã. O Catecismo da Igreja Católica
viria reforçar essa ideia, no ponto 1965: A Lei nova é […] obra de Cristo e tem a sua expressão, de modo particular, no sermão da montanha.”

Ainda que as bem-aventuranças nos sejam bastante familiares, é importante renovar o nosso olhar sobre elas, considerando o seu contexto judaico e a forma como têm sido interpretadas na tradição da Igreja. Em Mateus 5:1-12 lemos o seguinte:

Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».”

É por aqui que Jesus escolhe iniciar o Sermão da Montanha: as bem-aventuranças estão no coração da pregação de Jesus, tal como recorda o Catecismo da Igreja Católica no ponto 1716. A palavra “bem-aventurados” vem do grego makários, que significa “feliz”. Assim, compreendemos que as bem-aventuranças revelam nada menos do que a receita, o segredo, para a verdadeira felicidade, uma felicidade tecida de paradoxos misteriosos.


Começamos com uma breve síntese sobre cada um dos felicitados:

  1. Os pobres de espírito, aqueles que reconhecem a sua completa dependência de Deus, pois deles é o reino dos Céus. Este é o primeiro passo para a felicidade, a virtude da humildade.

  2. Os que choram, pelo sofrimento, pelo pecado e pela morte, realidades inerentes à vida terrena. A estes é feita uma promessa de conforto que transcende este mundo.

  3. Os mansos, pacientes e serenos diante das ofensas, herdarão a terra – não esta, que é dominada pelos poderosos e violentos, mas a nova terra.

  4. Os com fome e sede de justiça, num mundo cheio de injustiça, serão saciados.

  5. Os misericordiosos, que perdoam as faltas dos outros até quando estes não o merecem, receberão a misericórdia de Deus, que também eles não merecem.

  6. Os puros de coração, aqueles que agem com integridade e rectidão e guardam o coração livre de malícia e pecado. Estes estão preparados para ver Aquele que é completamente santo, no qual não há escuridão.

  7. Os que promovem a paz e buscam a reconciliação serão chamados filhos de Deus, ou seja, farão parte da vida do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Esta bem-aventurança tem especial ressonância para o povo judeu, que até hoje se cumprimenta com a palavra hebraica shalom, que significa “paz”.

  8. Os que são perseguidos por causa da justiça. Este é o selo de um verdadeiro profeta: ser incompreendido, difamado e até perseguido por amor à verdade, como aconteceu com o próprio Jesus.


No topo da montanha, a humildade

Algo que para um judeu do século I saltaria à vista seria o facto de este sermão ser pregado no topo de uma montanha. Jesus sobe à montanha, tal como Moisés subiu ao Monte Sinai para receber a antiga Lei. O Evangelho de São Mateus, em particular, destaca vários paralelos entre Jesus e Moisés: ambos são salvos ainda bebés da perseguição de um rei cruel, ambos passam pelo deserto e ambos alimentam o povo com pão miraculoso. E agora, tal como Moisés, Jesus sobe a uma montanha, desta vez na Galileia, para entregar aos seus discípulos a nova Lei: a Lei do Evangelho. No entanto, desta vez o povo não permanece no sopé da montanha (Êxodo 19, 20), mas é convidado a subir com Jesus. Diferente da Lei de Moisés, que apontava para o reino terreno de Israel, a Lei de Jesus aponta para o reino dos Céus, para o alto da montanha e vem completar as promessas feitas ao povo eleito, desde Abraão.

A primeira bem-aventurança também não seria estranha para os judeus mais atentos. As leituras de hoje do Antigo Testamento revelam o porquê. A primeira leitura é do livro de Sofonias (2:3), um profeta pouco conhecido:

Procurai o Senhor, vós todos os humildes da terra, que obedeceis aos seus mandamentos. Procurai a justiça, procurai a humildade; talvez encontreis proteção no dia da ira do Senhor. Só deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde, que buscará refúgio no nome do Senhor. O resto de Israel não voltará a cometer injustiças, não tornará a dizer mentiras, nem mais se encontrará na sua boca uma língua enganadora. Por isso, terão pastagem e repouso, sem ninguém que os perturbe.

Sofonias descreve um grupo de israelitas pobres, humildes e que procuram a virtude. Estes formarão o verdadeiro Israel. No Evangelho, Jesus sobe à montanha e dá vida a esta profecia, reunindo este grupo, que começa com Ele e os seus discípulos, e que se torna um exemplo de humildade e busca pela justiça. O salmo de hoje, o Salmo 145 (146), reforça a mesma ideia: o Senhor exalta os humildes, cuida dos oprimidos, dos famintos, dos cegos, dos estrangeiros, das viúvas e dos órfãos. Este é o grupo escolhido, que Ele erguerá e exaltará.


A apontar para o Céu

Uma característica particularmente inovadora para um judeu do século I é o facto de a lista que Jesus apresenta ser inteiramente composta por bênçãos. No Monte Sinai, Moisés dá também uma longa lista de bênçãos para a obediência, mas inclui igualmente maldições para a desobediência. Na nova Lei, porém, não há nenhuma maldição.

A verdade é que as bênçãos, à primeira vista, não parecem muito boas: ser pobre, sofrer injustiças, ser perseguido…. Poder-se-ia pensar: com bênçãos assim, quem precisaria de maldições? Aqui revela-se a inovação e genialidade da nova Lei. Jesus vem fundir as bênçãos e as maldições, porque a entrada no reino dos Céus e, portanto, na verdadeira felicidade, passa pela cruz, pelo sofrimento, que são unidos à paixão, morte e ressurreição de Cristo. São Paulo afirma em Gálatas 3:14: Cristo resgatou-nos da maldição da Lei, ao fazer-se maldição por nós, (…) Isto, para que a bênção de Abraão chegasse até aos gentios.”

Todas as promessas paradoxais implícitas nas bem-aventuranças existem para sustentar a esperança no meio da tribulação, mostrando que a verdadeira felicidade está enraizada na confiança e na fidelidade a Deus, mesmo quando o caminho é difícil.

Todo o sofrimento será desfeito no reino dos Céus. Como diz em Apocalipse 21:4: Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram.” Este é o tipo de felicidade suprema que Jesus nos descreve nas oito bem-aventuranças, no início do Sermão da Montanha.

E esta esperança fica implícita na direcção para que as bênçãos apontam. As bem-aventuranças projectam-nos para o fim dos tempos, para a ressurreição dos mortos e para a luz do Céu, a vida do mundo que há de vir. O reino dos Céus emoldura as bênçãos que Jesus faz. A primeira e a última bem-aventurança têm a mesma promessa –porque deles é o reino dos Céus eporque é grande nos Céus a vossa recompensa. O conforto prometido realizar-se-á, portanto, na próxima vida. Trata-se de uma imagem judaica da nova criação anunciada por Isaías e outros profetas, que previam que todo o mundo seria renovado através do Messias.


O exemplo de Cristo

Portanto, já relembrámos que as bem-aventuranças são a receita para a verdadeira felicidade, sustentando a nossa esperança no meio da tribulação da vida terrena. Mas, melhor ainda, é que Jesus não se limita a dar a receita: caminha connosco e acompanha-nos em cada passo, em cada ingrediente, mostra-nos como se faz.

As bem-aventuranças não são apenas algo que Jesus nos chama a fazer, mas algo que Ele próprio incorporou na Sua vida. São o Seu semblante e isto faz ainda mais sentido quanto mais reflectimos sobre cada uma delas. Jesus era humilde, chorou diante do sofrimento, do pecado e da morte e era manso: Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração (Mateus 11:28-29)”. Tinha também fome e sede de justiça, mostrava misericórdia aos que o insultavam, era puro de coração, buscava a paz e foi perseguido e crucificado pelo bem da justiça e do reino dos Céus. Somos chamados a imitar Cristo, assim como os Seus discípulos o fizeram.

Cada uma das bem-aventuranças representa atitudes que devem ser características da vida cristã. Se Jesus, o Mestre, manifesta plenamente essas qualidades, então nós, como Seus discípulos, devemos também procurar incorporá-las nas nossas próprias vidas.

Texto baseado em “Mass Readings Explained – Year C – 27th Sunday Ordinary time” por Brant Pitre

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