Na Vossa Constância Salvareis as Vossas Almas

Por: Salvador R. Cavaco

“Na Vossa Constância Salvareis as Vossas Almas”

Primeira Leitura: Malaquias 3:19-20ª
Salmo: 97 (98)
Segunda Leitura: 2 Tessalonicenses 3 :7-12
Evangelho: Lucas 21:5-19


Estamos a chegar ao termo do ano litúrgico: este é o penúltimo Domingo do calendário da Igreja, mas marca também o último momento da nossa leitura contínua do Evangelho segundo São Lucas, conduzindo-nos ao fim do ministério público de Jesus. Neste Domingo, a liturgia convida-nos a escutar o último grande ensinamento de Cristo antes da Sua Paixão: o chamado “discurso do Monte das Oliveiras”.

O evangelista coloca-nos em Jerusalém, às vésperas do mistério pascal. Jesus, acompanhado dos discípulos, sai da cidade e dirige-Se ao Monte das Oliveiras, a oriente, de onde se contempla a imponência do Templo. Perante a admiração dos discípulos pela grandiosidade daquela construção, o Senhor revela-lhes um oráculo profético: anuncia a futura destruição do Templo e, com ela, um tempo de provação e de tribulação.

Este anúncio, no imediato, refere-se ao drama histórico da queda de Jerusalém. Mas o olhar de Cristo leva-nos mais longe: abre-se a uma dimensão escatológica, que interpela a Igreja de todos os tempos a permanecer vigilante. Nas palavras de Jesus, os acontecimentos presentes tornam-se sinal e anúncio de um horizonte último, no qual se decide, em definitivo, o destino da humanidade diante de Deus.

Lucas 21:5–19 diz o seguinte:


“Como alguns falassem do Templo, dizendo que estava adornado de belas pedras e de ofertas votivas, respondeu: «Virá o dia em que, de tudo isto que estais a contemplar, não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído.» Perguntaram-Lhe, então: «Mestre, quando sucederá isso? E qual será o sinal de que estas coisas estão para acontecer?» Ele respondeu: «Tende cuidado em não vos deixardes enganar, pois muitos virão em Meu Nome, dizendo: ‘Sou Eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo.’ Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis; é necessário que estas coisas sucedam primeiro, mas não será logo o fim.» Disse-lhes depois: «Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em vários lugares, fomes e epidemias; haverá fenómenos apavorantes e grandes sinais no céu. Mas, antes de tudo, vão deitar-vos as mãos e perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e metendo-vos nas prisões; hão-de conduzir-vos perante reis e governadores, por causa do Meu Nome. Assim, tereis ocasião de dar testemunho. Gravai, pois, no vosso coração que não vos deveis preocupar com a vossa defesa, porque Eu próprio vos darei palavras de sabedoria, a que não poderão resistir ou contradizer os vossos adversários. Sereis entregues até pelos pais, irmãos, parentes e amigos. Hão-de causar a morte a alguns de vós e sereis odiados por todos, por causa do Meu Nome. Mas não se perderá um só cabelo da vossa cabeça. Pela vossa constância é que sereis salvos.»”

Neste Evangelho, podemos realçar três aspectos fundamentais. O primeiro, e mais decisivo, é compreender o que é que Jesus realmente quis dizer. O contexto ajuda-nos a perceber: o oráculo profético refere-se, antes de mais, à destruição do Templo de Jerusalém. A cena desenrola-se no Monte das Oliveiras, de onde se contempla a magnificência do Templo. Alguns discípulos, talvez vindos da Galileia, deixam transparecer o seu assombro diante da grandiosidade e beleza daquele lugar santo, coração da vida religiosa de Israel.

É então que Jesus, acolhendo o espanto dos discípulos, proclama com palavras solenes: “Virá o dia em que, de tudo o que agora contemplais, não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído.”

Deste anúncio emergem, desde já, três dimensões a considerar.


Em primeiro lugar, a centralidade do Templo: ele era o sinal visível da presença de Deus no meio do Seu povo e, por isso, a referência que sustentava a fé de Israel. É precisamente este “isto” — a imponência do edifício — que alimenta a contemplação dos discípulos.


Em segundo lugar, a atitude de Jesus: o Senhor não censura a admiração deles, mas acolhe-a e reorienta-a. A contemplação, legítima e boa, é purificada e reconduzida para um horizonte mais profundo.


Em terceiro lugar, a direcção do olhar: Jesus abre-os ao futuro, anunciando um dia em que até as pedras firmes do Templo ruirão. O que parecia inabalável será destruído. Assim, convida os discípulos a não prenderem o coração ao que é transitório, mas a elevarem-no para o que permanece diante de Deus, e que nenhum poder humano pode destruir.

O anúncio da ruína do Templo não era, de resto, inédito. Algo semelhante tinha já acontecido em 587 a.C., quando os babilónios devastaram Jerusalém e destruíram o Primeiro Templo. Também os profetas, como Jeremias, tinham advertido que tal tragédia poderia sobrevir. Agora, porém, Jesus retoma esse anúncio, situando-o no horizonte próximo da Sua geração.

Os discípulos, conscientes da gravidade das Suas palavras, perguntam-Lhe: “Mestre, quando sucederá isso? E qual será o sinal de que estas coisas estão para acontecer?”

A resposta de Jesus não consiste em dar datas ou previsões cronológicas. Em vez disso, Ele descreve o tempo de tribulação que precederá a destruição do Templo: um período marcado por guerras e rumores de guerras, por fomes e pestes, por conflitos entre povos e até mesmo por sinais nos céus.

Contudo, o Senhor previne: “Não vos assusteis; não será logo o fim.” Reassegura os discípulos, relembrando, ao mesmo tempo, que não será já o termo dos tempos, e acrescenta uma advertência: não seguir falsos profetas nem falsos messias, que surgirão usurpando o Seu Nome e dizendo: “Sou Eu”. Cristo é peremptório: “Não os sigais. Não vos deixeis enganar.”

A mensagem de Jesus aos discípulos é, portanto, uma dupla convocação: à vigilância e à constância. Ele adverte-os de que haveriam de ser perseguidos no período de tribulação que se seguiria à Sua Morte e Ressurreição, culminando nos acontecimentos dramáticos que levariam à destruição do Templo de Jerusalém.

A história confirma o cumprimento destas palavras. Jesus foi crucificado por volta dos anos 30–33 d.C. e, menos de quarenta anos depois, em 70 d.C., Jerusalém foi sitiada pelo exército romano. A cidade foi incendiada, o Templo destruído e, segundo o historiador judeu Flávio Josefo, centenas de milhares — talvez mesmo perto de um milhão — de judeus foram mortos. Este acontecimento, conhecido como a Grande Guerra Judaica contra Roma, constituiu um dos episódios mais trágicos da história do povo de Israel.

Mesmo sem recorrer a outras fontes históricas, basta lermos o livro dos Actos dos Apóstolos para constatarmos que muitas das profecias de Jesus se cumpriram. Os Apóstolos foram traídos, perseguidos, encarcerados e até mortos. Compareceram diante de governadores e reis, sofreram a hostilidade de multidões e a violência de autoridades. Foi um tempo de sofrimento intenso, marcado pela guerra, pela violência e pelo sangue.

E, no meio de tudo isto, a palavra de Jesus permanece clara e firme: “Não tenhais medo. Não vos deixeis enganar, pois este é o momento de dar testemunho.” O termo grego usado para “testemunho” é martýrion — de onde deriva a nossa palavra “mártir”. Mártir significa, de forma literal, “aquele que dá testemunho”. Assim, os Apóstolos, e depois deles toda a Igreja, compreenderam que a fidelidade a Cristo podia exigir até à entrega da própria vida.

Na tradição cristã, a palavra “mártir” passou a designar aquele que dá testemunho até à morte — precisamente porque foi isso que aconteceu não só com os Apóstolos, mas também com muitos outros cristãos, perseguidos após a Morte e Ressurreição de Jesus. Basta recordarmos o exemplo de Saulo, que mais tarde se tornaria Paulo, envolvido inicialmente nas perseguições em Jerusalém. Depois, as perseguições espalharam-se por todo o Império Romano, atingindo um ponto particularmente cruel durante o reinado de Nero, nos anos 60 do primeiro século d.C.

Assim, a profecia de Jesus, a um primeiro nível, refere-se claramente ao tempo de tribulação e conflito que decorreu entre os anos 30 e 70 d.C., culminando na destruição do Templo de Jerusalém.

No entanto, a Igreja sempre reconheceu nesta profecia um significado mais profundo, porque também os próprios judeus viam no Templo uma realidade que transcendia a simples materialidade de um edifício. Para compreender esse sentido espiritual das palavras de Jesus, é necessário recordar o que o Templo representava para um judeu do século I.

O Templo não era apenas um monumento belo ou imponente: possuía três elementos centrais de imensa importância. Em primeiro lugar, era a morada de Deus. No Primeiro Livro dos Reis (1 Reis 8), lemos que, quando Salomão concluiu a construção do Templo, a glória do Senhor desceu do Céu em forma de nuvem — a chamada shekhinah — para habitar naquele lugar. Era o sinal visível de que Deus Se fazia presente no meio do Seu povo. Em segundo lugar, o Templo era o único lugar onde se podiam oferecer sacrifícios. O Deuteronómio (Deuteronómio 12) deixa isso bem claro: todo o judeu que desejasse oferecer um sacrifício, seja de expiação pelo pecado, seja de acção de graças, tinha de o fazer num único lugar — no Templo de Jerusalém. Não podia ser em casa, no quintal ou numa sinagoga da sua cidade. Embora já existissem sinagogas no tempo de Jesus, estas eram sobretudo lugares de oração e de estudo da Escritura. O coração do culto de Israel era o Templo, porque ali se ofereciam os sacrifícios, ali se exercia o sacerdócio e ali se realizava a liturgia segundo a Lei de Moisés. Por fim, em terceiro lugar — talvez o mais importante para compreender a profundidade da profecia de Jesus e o seu alcance para nós —, o Templo era visto como um microcosmo do Céu e da Terra. A própria arquitectura do edifício era considerada uma representação do universo inteiro, da criação inteira reconciliada diante de Deus.

O historiador judeu Flávio Josefo, no século I, ao descrever o tabernáculo de Moisés (modelo do Templo de Jerusalém), escreve: “foram todas feitas de modo a imitar e representar o universo.” (Antiguidades Judaicas, III, 7, 7 §81). Ele explica, por exemplo, que o chamado “mar de bronze”, cheio de água, simbolizava o mar, enquanto outros elementos remetiam para o firmamento, a terra e o céu. O candelabro de ouro, a menorá, representava as luzes do firmamento, isto é, os sete astros visíveis a olho nu na época. Sobre o véu do Templo — que separava o Santo dos Santos do espaço exterior —, Flávio Josefo relata que estavam bordadas as constelações, todas as estrelas do céu. Assim, o véu simbolizava o próprio Céu, enquanto o espaço por detrás dele, o Santo dos Santos, era entendido como o “Céu dos Céus”, o lugar invisível, a morada de Deus.

Este dado é particularmente significativo à luz dos Evangelhos: no momento da Morte de Cristo, o véu do Templo rasgou-se de alto a baixo (cf. Mt 27:51; Mc 15:38; Lc 23:45). O que significa isto? Que, pela entrega de Jesus na cruz, o próprio Céu foi aberto. Aquilo que antes permanecia velado, inacessível ao homem, tornou-se agora livremente acessível pela mediação do Filho de Deus.

Para os judeus, o universo inteiro era concebido como um grande templo, um lugar sagrado onde Deus habita espiritualmente. E, em paralelo, o Templo de Jerusalém era entendido como um microcosmo do cosmos — uma representação visível do Céu e da Terra. Por isso, a destruição do Templo não significava apenas a ruína de um edifício sagrado. Para a mentalidade judaica, era o sinal de um colapso cósmico: como se os Céus e a Terra se desfizessem, como se o universo inteiro se dissolvesse. Em última análise, a perda do Templo remetia para a imagem do Dia do Juízo Final, quando Deus viria instaurar a Sua justiça definitiva.

Tendo isto presente, podemos regressar à leitura do Antigo Testamento e compreender porque motivo a Igreja nos propõe este Evangelho precisamente no final do ano litúrgico. Não se trata apenas de um dos últimos discursos de Jesus, mas também da preparação para que a nossa atenção se volte para o Juízo Final e para a segunda vinda de Cristo no fim dos tempos: a destruição do mundo presente e a sua renovação em novos Céus e nova Terra.

A primeira leitura deste Domingo é do profeta Malaquias. Nos versículos 19–20 lemos:
“Pois, eis que vem um dia abrasador como uma fornalha. Todos os soberbos e todos os que cometem a iniquidade serão como a palha; este dia que vai chegar queimá-los-á — diz o Senhor do universo — e nada ficará deles: nem raiz, nem ramos. Mas, para vós que respeitais o Meu Nome, brilhará o Sol de justiça, trazendo a cura nos Seus raios; saireis e saltareis como bezerros para fora do estábulo.”

Esta profecia fala claramente de um julgamento futuro. Mas não se limita a anunciar a condenação: proclama também esperança e salvação para aqueles que temem o Nome do Senhor. A expressão “dia do Senhor”, comum na linguagem profética, refere-se precisamente a esse Juízo Final. É descrito como um fogo ardente, que terá efeitos distintos: para os ímpios, será um fogo que consome e destrói; para os justos, será como o Sol que ilumina e dá vida — o “Sol de justiça” que nasce para aqueles que permanecem fiéis a Deus.

O mesmo tema surge no Salmo 97 (98), proposto também neste Domingo. O refrão proclama: “O Senhor vem governar a Terra com justiça.” O Salmo descreve a criação inteira em atitude jubilosa diante do Senhor que vem julgar:

“Aclamai o Senhor, terra inteira,
exultai de alegria e cantai.
Cantai hinos ao Senhor,
ao som da harpa, ao som da harpa e da lira;
ao som de cornetins e trombetas,
aclamai o nosso Rei e Senhor.
Ressoe o mar e tudo o que ele contém,
o mundo inteiro e os que nele habitam.
Batam palmas os rios, e as montanhas,
em coro, gritem de alegria diante do Senhor,
que vem julgar a Terra.
Ele governará o mundo com justiça
e os povos com rectidão.”

É uma imagem belíssima e poderosa. Humanamente, o Juízo Final pode parecer aterrador. Mas as Escrituras mostram que a reacção dos justos não é de medo, mas de alegria: Deus vem instaurar a justiça que tantas vezes falta no mundo. Ele vem corrigir as injustiças, governar com equidade e — como sabemos de toda a revelação bíblica — exercer também a Sua misericórdia.

Assim, a Igreja coloca diante de nós este Evangelho e estas leituras para iluminar a nossa vida de fé. O Catecismo da Igreja Católica ajuda-nos a compreender. No número 585, recorda que Jesus respeitava o Templo: chamava-O de “Casa do Pai”, rezava nele, celebrava as festas e a Páscoa em Jerusalém. Contudo, anuncia também a sua destruição:
“Nas vésperas da Sua Paixão, Jesus anunciou a ruína deste esplêndido edifício, do qual não ficaria pedra sobre pedra. Há aqui o anúncio de um sinal dos últimos tempos, que vão iniciar-se com a Sua própria Páscoa.” (CIC, 585)

Portanto, desde a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, já estamos a viver os “últimos dias”. A destruição do Templo é sinal desse tempo novo: se o Templo representava o cosmos, a sua ruína aponta para o fim deste mundo e a inauguração de uma nova criação.

Mas o Catecismo vai mais longe. No número 675, afirma:

“Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes. (…) A suprema impostura religiosa é a do Anticristo, isto é, dum pseudo-messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo, substituindo-se a Deus e ao Messias Encarnado.”

E no número 677 acrescenta:

“A Igreja não entrará na glória do Reino senão através dessa última Páscoa, em que seguirá o Senhor na Sua Morte e Ressurreição. (…) O triunfo de Deus sobre a revolta do mal tomará a forma de Juízo Final, após o último abalo cósmico deste mundo passageiro.”

Esta é a fé da Igreja: desde a Páscoa de Cristo vivemos os últimos tempos, mas antes da manifestação plena da Sua glória haverá ainda um tempo de provação e de purificação. A história da Igreja confirma-o: desde os Apóstolos até hoje, sempre houve perseguições, martírio e sofrimento. A Igreja é chamada, em todos os séculos, a conformar-se com Cristo crucificado, dando testemunho d’Ele em meio às tribulações.

Por isso, estas leituras não pretendem assustar-nos, mas preparar-nos. No fim do ano litúrgico, somos convidados a olhar para o fim último da história, para o Juízo de Cristo, Rei do Universo, que celebraremos já no próximo Domingo. Assim, cada um de nós é chamado a viver vigilante, firme na fé, confiante na justiça e misericórdia de Deus, pronto a testemunhar Cristo, mesmo em tempos de provação. Esta é a verdadeira atitude cristã diante do Juízo Final: não medo, mas esperança.

Texto baseado em Mass Readings Explained – The Thirty-third Sunday of Ordinary Time” por Brian Pitre

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