Pedir a fé, viver a humildade, esperar em Deus

Por: Mafalda Moncada Cordeiro

27.º Domingo do Tempo Comum (Ano C)
Pedir a fé, viver a humildade, esperar em Deus

Primeira Leitura: Habacuc 1:2-3; 2:2-4
Salmo: 95:1-2,6-7, 8-9
Segunda Leitura: Timóteo 1:6-8,13-14
Evangelho: Lucas 17:5-10


Aumenta a nossa fé.”. É com este pedido sincero dos apóstolos, que só surge em S. Lucas, que começa o Evangelho deste Domingo. Um pedido que é respondido de forma simples por Jesus através de duas parábolas breves: a parábola do grão de mostarda e da amoreira e a parábola do bom servidor. Comecemos por ler Lucas 17:5-10:

Os Apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé.» O Senhor respondeu: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a essa amoreira: ‘Arranca-te daí e planta-te no mar’, e ela havia de obedecer-vos.»

«Qual de vós, tendo um servo a lavrar ou a apascentar gado, lhe dirá, quando ele regressar do campo: ‘Vem cá depressa e senta-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, enquanto eu como e bebo; depois, comerás e beberás tu’? Deve estar grato ao servo por ter feito o que lhe mandou?

Assim, também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer.’»

Os apóstolos pedem fé a Jesus. Esta fé tem um significado que vai além da crença em Deus e que aponta para a confiança na Sua palavra. É uma fé viva, que pode crescer, depois de ser semeada. A palavra grega pistis aqui traduzida como fé e também usada por S. Paulo, aponta precisamente para um pedido de crescimento, por parte dos apóstolos, na confiança na palavra de Deus. Em resposta a este pedido Jesus conta-lhes uma simples parábola:

«Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a essa amoreira: ‘Arranca-te daí e planta-te no mar’, e ela havia de obedecer-vos.»

A semente de mostarda e a amoreira. Duas imagens do mundo natural, que são usadas para contar esta parábola. A semente de mostarda, era tida popularmente como a menor de todas as sementes na linguagem judaica. Apesar de muito pequena, esta semente pode crescer rapidamente e dá origem a uma planta muito maior do que ela. Esta é a primeira imagem da fé que é apresentada, uma semente pequena que pode crescer muito para além do esperado. A segunda imagem da fé é a amoreira. Restam ainda algumas dúvidas sobre se esta árvore seria de facto uma amoreira ou um sicómoro, seja como for seria uma árvore com um sistema radicular amplo e profundo. A resposta de Jesus mostra que não é a quantidade de fé que importa, mas a qualidade e autenticidade dessa fé. Uma fé "do tamanho de um grão de mostarda", uma das menores sementes, já seria suficiente para realizar coisas humanamente impossíveis, como ordenar a uma árvore de raízes profundas que se plante no mar, o que é naturalmente impossível. Isso simboliza a capacidade da fé verdadeira de superar obstáculos profundos e firmemente enraizados.

A parábola que vem imediatamente a seguir a esta é a do bom servidor:

«Qual de vós, tendo um servo a lavrar ou a apascentar gado, lhe dirá, quando ele regressar do campo: ‘Vem cá depressa e senta-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, enquanto eu como e bebo; depois, comerás e beberás tu’? Deve estar grato ao servo por ter feito o que lhe mandou?»

Ao cumprir o seu dever, o servo não espera receber uma recompensa pelo seu trabalho, não espera sentar-se à mesa com o seu senhor. Jesus diz: Assim, também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer.” Este é o ensinamento ou interpretação moral ou espiritual da parábola, o nimshal em hebraico. O que Jesus diz aqui é que somos todos servos de Deus, não devemos esperar recompensas quando cumprimos o nosso dever. A palavra grega opheilō é traduzida como dever, mas significa também dívida e é inclusivamente a palavra usada no Pai Nosso: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”.

Obedecer ao Mestre é apenas pagar uma dívida, cumprir um dever. Isto alerta-nos para a tentação do orgulho e poderá ser especialmente relevante para os apóstolos, que por esta altura já se sentiriam bastante especiais, por terem sido escolhidos por Jesus e também já terem realizados vários milagres em Seu nome. Jesus usa estas palavras duras para recordar a virtude da humildade. É fácil esquecer o quão radicalmente endividados estamos para com Deus, é fácil pensar que se merece uma recompensa. É verdade que Jesus diz também que todos os que praticam esmola e oração serão recompensados, mas é necessário manter a humildade e lembrar que apesar de termos sido escolhidos, somos pecadores. Cada vez que pecamos, pecamos contra Deus como diz o salmo 51 Contra ti pequei, só contra ti.” e ficamos com uma dívida, a dívida do pecado. Nunca vamos conseguir saldar totalmente essa dívida e lembrar essa realidade ajuda-nos a viver a humildade que Jesus pede.

Uma das principais formas de obediência a Deus é a fidelidade ao dever do nosso estado de vida. Se és mãe ou pai e cuidas dos teus filhos, isso é óptimo, mas é também o teu dever; se és empregado e fazes bem o teu trabalho, excelente! Mas é o teu dever. Isso faz parte da identidade, é o dever de quem é discípulo de Jesus e não se devem esperar elogios ou recompensas.

Sumarizando, enquanto a primeira parábola nos ensina a virtude da fé, a segunda ensina-nos a virtude da humildade. Estas devem andar de mão dada. É preciso humildade para confiar verdadeiramente em Deus, para acreditar que, aconteça o que acontecer, Deus está no comando. Deus consegue fazer o impossível com o mais pequeno grão de fé, se confiarmos n’Ele.

Relacionemos agora esta passagem com o Antigo Testamento, com a passagem da primeira leitura de hoje. Esta é do pequeno livro do profeta Habacuc:

Habacuc 1:2-3
“Até quando, Senhor,
pedirei socorro,
sem que me escutes?
Até quando clamarei: «Violência!»,
sem que me salves?
Porque me fazes ver a iniquidade,
e contemplar a desgraça?
Diante de mim só vejo opressão e violência,
nada mais do que discórdias e contendas.”


Habacuc 2:2-4
Então o Senhor respondeu-me:
“Escreve a visão, grava-a em tabuínhas,
para que possa ser lida facilmente.
Porque é uma visão para um tempo fixado:
ela aspira pelo seu termo e não falhará.
Se tardar, espera por ela igualmente;
que ela cumprir-se-á,com toda a certeza não falhará.
Eis que sucumbe o que não tem a alma reta,
mas o justo viverá pela sua fidelidade.”


Nesta leitura assistimos a uma oração não respondida. Uma oração que pode ser aplicada facilmente aos dias de hoje, onde se observa tanto mal e injustiça. Onde está Deus no meio disto? As palavras do Senhor seguem-se e tranquilizam:
Se tardar, espera por ela igualmente; que ela cumprir-se-á, com toda a certeza não falhará.. A fé não é apenas um acto do intelecto, mas também da vontade. O justo viverá pela sua fidelidade, pela confiança no que não se vê, na salvação de Deus. Esta é uma passagem muito bonita que surge como resposta aos momentos da vida espiritual em que tudo parece perdido, em que é especialmente importante confiar em Deus. Estes momentos fazem parte da vida de fé, desde o Antigo Testamento até agora. O povo de Deus sempre foi chamado a viver pela fé com o sofrimento à sua volta.

O salmo de hoje liga-se com esta leitura e é um dos mais famosos: o Salmo 95, um dos salmos diários rezados no Invitatório da Liturgia das Horas. Os últimos versículos do salmo (7-11) dizem o seguinte:

Oxalá ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações, como em Meribá,
como no dia de Massá no deserto,
quando os vossos pais me provocaram,
e me puseram à prova,


apesar de terem visto as minhas obras.
Durante quarenta anos essa geração desgostou-me,
e Eu disse: ‘É um povo de coração transviado,
que não compreendeu os meus caminhos!’
Então jurei na minha ira:
“Não entrarão no lugar do meu repouso.”



A história de Meribá e Massá está descrita em Êxodo no capítulo 17, que se segue ao episódio do pão do céu, o maná. O povo reclama agora por água e Moisés fere uma rocha e a água jorra milagrosamente. No fim deste episódio diz: “[Moisés] deu àquele lugar o nome de Massá e Meribá, por causa do litígio dos filhos de Israel, e por terem posto o Senhor à prova, dizendo: «Está o Senhor no meio de nós ou não?»” É importante notar que Deus já tinha aberto o Mar Vermelho, para que o povo de Israel atravessasse a pé enxuto, tinha dado pão do céu e ainda assim o povo duvida. Meribá significa contenda e Massá significa prova, porque o povo tinha o coração endurecido e não confiava, apesar de tudo o que Deus já tinha feito por eles.

O endurecimento do coração, a perda de fé e pôr Deus à prova frequentemente surgem quando passamos provações. A tentação é desesperar, pensar “Deus abandonou-nos” tal como o povo judeu tantas vezes pensou na sua viagem atribulada pelo deserto. Na verdade, Deus estava ainda mais próximo nesses momentos. Não confiaram que Ele podia fazer o impossível. Precisamos de ser lembrados todos os dias do que Habacuc disse: O justo viverá pela sua fidelidade.”.

Sobre a oração aparentemente não respondida temos também uma citação da tradição, de Evágrio Pôntico, um dos Padres do Deserto, que diz (Catecismo da Igreja Católica §2737) :

Não te aflijas, se não recebes logo de Deus o que Lhe pedes: é que Ele quer beneficiar-te ainda mais pela tua perseverança em permanecer com Ele na oração.”

Um dos frutos da oração não respondida é uma oração mais intensa. Deus pode permitir uma maior provação porque Ele deseja para nós um bem espiritual maior, a nossa união mais profunda com Ele.

E outra citação diz Santo Agostinho, nas suas cartas (Catecismo da Igreja Católica §2737):

Deus quer que o nosso desejo se exercite na oração dilatando-nos, de modo a termos capacidade para receber o que Ele prepara para nos dar.”

Quanto mais persistimos na oração, mais treinamos o nosso coração para receber o que Deus nos quer dar, no tempo que Ele sabe ser o melhor. 

Texto baseado em “Mass Readings Explained – Year C – 27th Sunday Ordinary time” por Brant Pitre

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