
Por: Padre Duarte Andrade e Sousa
Primeira Leitura: Êxodo 12:1-8, 11-14
Salmo: 116 (115):12-13, 15-16bc, 17-18
Segunda Leitura: 1 Coríntios 11:23-26
Evangelho: João 13:1-15
Com a celebração da missa vespertina na Ceia do Senhor damos início ao Tríduo Pascal, os dias mais importantes de todo o ano litúrgico. Acompanhamos o Senhor Jesus nos últimos momentos da sua vida terrena, naquela derradeira Páscoa. Várias vezes o Senhor tinha avisado os seus discípulos que teria de subir a Jerusalém para aí ser perseguido e crucificado, e ao terceiro dia ressuscitar. Eis-nos chegamos a esses dias. Se no início desta grande semana acompanhámos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos, aclamado como Rei ao som de cânticos e festejado com palmas, o ambiente da noite de Quinta-feira santa é bem diferente.
Em primeiro lugar o dia escolhido acontece no contexto da Páscoa judaica, mais concretamente da ceia pascal. É evidente para Jesus e os seus Apóstolos a razão pela qual estão em Jerusalém naqueles dias, bem como centenas de milhares de outros judeus: vão celebrar a festa da páscoa, como faziam todos os anos (Cf. Jo 11, 55). Como nos lembra a primeira leitura, esta festa é instituída como memória perene da libertação do povo de Israel da escravidão a que estavam sujeitos por mais de 400 anos no Egipto. Moisés, mandatado por Deus, apela ao Faraó que liberte o seu povo, mas este, de coração endurecido, decide não só manter os judeus escravos como dificultar ainda mais os seus trabalhos. Nesse sentido o Senhor Deus envia várias pragas como avisos para os egípcios deixarem os falsos deuses – daí as pragas relacionadas com o Nilo, o Sol, os sapos ou outros, todos eles divindades egípcias. A última praga, a mais grave e que dita a saída, é a morte dos primogénitos, tantos dos homens como dos animais. Parece de uma crueldade desproporcional, mas não devemos esquecer que, no início do livro do Êxodo, o próprio Faraó, ao tempo do nascimento de Moisés, tinha determinado não a morte dos primogénitos, mas a morte de todos os rapazes judeus (Cf. Ex 1, 22). Deus é mais misericordioso que os homens.
A primeira leitura insiste num sinal fundamental, que o será também na última Ceia: o sangue. Diz o Senhor: «ao ver o sangue, passarei adiante e não sereis atingidos pelo flagelo exterminador» (Ex 12, 13). Cada família terá de sacrificar e comer um cabrito ou um cordeiro sem defeito e com o sangue deverá marcar os dois umbrais e a padieira da porta para assim serem poupados da morte e libertados da escravidão. O sangue será aspergido com ramos de hissope (Cf. Ex 12, 22), e não deixa de ser interessante que essa é a mesma planta que será embebida em vinho (que, na última Ceia, Jesus diz ser o seu sangue) e dada a beber a Jesus na Cruz, como que numa aspersão sobre ele, pregado na cruz (Jo 19, 29). De facto, Jesus é a porta de entrada para o Céu, como o próprio diz: «Eu sou a porta, se alguém entrar por Mim será salvo» (Jo 10, 9).
Por tudo isto, Jesus celebra a Páscoa com os discípulos, como todos os judeus faziam, como memorial perpétuo, cumprindo a tradição judaica. É exactamente isso que nos relata a segunda leitura da Missa de hoje, o relato da instituição da Eucaristia de São Paulo na primeira Carta aos Coríntios. As palavras “fazei isto em memória de Mim” aí ditas por Jesus são de vital importância litúrgica, uma vez que a recordação, no seu sentido etimológico de “trazer ao presente”, é a principal função da eucaristia. Ao mesmo tempo já dissemos que a celebração anual da ceia pascal veio precisamente como obediência a esta memória perpétua do acontecimento libertador da escravidão do Egipto. Assim como os israelitas tinham sacrifícios memoriais, também agora Jesus na Eucaristia cria um novo tipo de sacrifício memorial a ser celebrado pelos seus apóstolos/sacerdotes a partir desse momento.
Jesus enfatiza que a Nova Aliança é celebrada no seu sangue. É o sangue do Cordeiro derramado e aspergido, que tira o pecado do mundo; é o sangue que contém em si a própria vida, como os judeus acreditavam, daí que as Alianças fossem seladas com o sangue. Na Nova Aliança eucarística passamos a partilhar o sangue de Jesus, pertencemos ao seu Corpo, recebemos a sua Vida divina.
O salmo responsorial é também muito significativo e ajuda a perceber o que se passou na Última Ceia, e como esta de facto não foi apenas uma refeição casual de Jesus com os seus discípulos: este é um dos salmos Hallel, cantados durante o Seder, a ceia pascal. Concretamente este era um salmo cantado como parte dos sacrifícios Todah, sacrifícios de louvor ou acção de graças por um acto específico de libertação de uma ameaça de inimigos ou uma situação mortal, ou ainda sobrevivência de uma viagem perigosa, por exemplo. Neste tipo de sacrifícios pacíficos, os animais eram sacrificados no Templo, mas não eram queimados no altar, eram levados para casa para serem comidos na refeição ritual, juntamente com pães ázimos e vinho, enquanto se cantavam salmos. Assim se torna clara a ligação entre a Ceia Pascal judaica, sacrifício pacífico de acção de graças pela Páscoa libertadora para a Terra prometida, e a Eucaristia, palavra que significa acção de graças. É esta toda a força de significado das palavras do versículo 17: «Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor, invocando, Senhor, o vosso nome»: a Eucaristia não se trata apenas de um momento de oração simbólica de acção de graças e louvor mas é verdadeiramente o sacrifício de Jesus Cristo na Cruz, o mistério da sua morte e ressurreição.
Chegados ao Evangelho damos conta de uma primeira aparente dissonância com o tema de todas as outras leituras. Enquanto estas se centram no significado e no memorial da Ceia Pascal e na subsequente instituição da Eucaristia e do sacerdócio por Jesus, no Evangelho a tónica central é o Lava-Pés, gesto cujo primeiro e mais óbvio significado é a caridade, o despojamento de si para o serviço humilde aos irmãos. A Igreja escolhe para esta Missa o único evangelista que não relata a instituição da Eucaristia, sendo que os sinópticos – Mateus, Marcos, Lucas – e a Primeira Carta aos Coríntios a narram e omitem este gesto.
O Lava-Pés desenvolve-se na seguinte sequência: Jesus tira a roupa – lava os pés – volta a vestir-Se – volta a sentar-Se. Esta sequência pode ser interpretada de duas formas diferentes. Quando Jesus tira a roupa alude à sua descida à terra, tirando assim de forma simbólica a sua visível divindade. Depois ao lavar os pés está a humilhar-Se ao longo da sua vida pobre e humilde, de serviço e perseguição. Por fim, ao voltar a vestir-Se e regressar à mesa a sua ressurreição, revestido de glória, e a sua Ascensão ao Céu. A segunda interpretação seria Jesus a despir-se das vestes da sua humanidade, a sua descida à morte e a retomar as vestes da sua nova humanidade agora glorificada. Estas interpretações recordam-nos o hino quenótico da Carta aos Filipenses, no qual São Paulo relata o movimento descendente-ascendente de Jesus, que não Se valendo da sua igualdade com Deus, aniquilou-Se a Si próprio (Fil 2, 5-11).
É, portanto, óbvio, como dissemos, o sentido do Lava-Pés como serviço humilde da parte dos discípulos de Jesus aos seus irmãos. Há, contudo, um fundamental e mais profundo sentido que torna evidente este gesto no contexto da Páscoa judaica e da instituição da Eucaristia e do sacerdócio.
Os sacerdotes do Antigo Testamento, antes de entrarem no santuário para oferecem sacrifícios, tinham sempre de lavar os seus pés e mãos (Ex 30, 19-21). Os discípulos tinham lavado as mãos, mas não os pés e nesse sentido Jesus, ao fazer este gesto, completa como que uma ordenação, deseja que os apóstolos sejam agora os sacerdotes da Nova Aliança que vão celebrar o sacrifício da nova Páscoa para o povo de Deus. Pedro, numa primeira instância, não percebendo ainda a totalidade do sentido do gesto de Jesus, recusa-se: «Nunca consentirei que me laves os pés». Contudo, Jesus respondeu-lhe: «Se não tos lavar, não terás parte comigo» (Jo 13, 8). Este termo remete-nos para o sentido levítico sacerdotal: aquando da divisão das terras e herança de Israel pelas Doze tribos, a tribo sacerdotal de Levi ficou sem terra, porque o Senhor seria a sua herança. É precisamente para este sentido que Jesus remete: os Apóstolos são os novos sacerdotes, ordenados para a celebração da Eucaristia, sacrifício da morte e ressurreição de Jesus. Até mesmo a opção celibatária, em toda a sua profundidade e beleza, reflecte este não tomar parte nas coisas terrenas para ter parte com Jesus.
Ainda no seguimento do diálogo lemos que «Simão Pedro replicou: “Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça”. Jesus respondeu-lhe: “Aquele que já tomou banho está limpo e não precisa de lavar senão os pés”» (Jo 13, 9-10). Uma possível interpretação será a referência aos sacramentos do baptismo e da confissão: quem já tomou o banho do baptismo, e assim ficou limpo do pecado original, só precisa de voltar a lavar os pés na confissão cada vez que se volta a sujar com os pecados cometidos posteriormente. Nesse sentido, lavar os pés uns aos outros, como Jesus ordena, já não significa apenas o serviço que devemos prestar aos irmãos, mas ganha esta nova dimensão do perdão dado aos outros ou mesmo a confissão sacramental mútua entre os sacerdotes.
Desde a reforma litúrgica que o rito do Lava-Pés se tornou frequente na vida litúrgica da maior parte das nossas paróquias. A realização desse rito na Missa na Ceia do Senhor em Quinta-feira Santa deve suscitar em nós a memória desta profunda ligação sacramental Eucaristia – Ordem – Baptismo – Reconciliação, como já vimos. Lavar os pés a doze homens engloba também o duplo significado: por um lado o serviço pobre e humilde a todo o povo de Deus – doze significando as Doze tribos de Israel e a Igreja; por outro lado, o Lava-Pés como a ordenação dos sacerdotes da nova Aliança, constituídos para perpetuar a presença real de Jesus que nessa noite, ao instituir a Eucaristia, cumpriu a sua promessa de estar connosco todos os dias até ao fim dos tempos (Mt 28, 20).




