Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Cristo Rei

Por: Teresa Alves

Primeira Leitura: 2 Samuel 5, 1-3
Salmo: Salmo 121
Segunda Leitura: Colossenses 1:12-20
Evangelho: Lucas 23, 35-43


O Ano Litúrgico termina este Domingo com a Solenidade de Cristo Rei e as leituras concentram-se fortemente no tema do Reino de Cristo, que foi prefigurado ou antecipado pelo Reino de David no Antigo Testamento. Assim, na leitura do Segundo Livro de Samuel lemos:

“Naqueles dias,
todas as tribos de Israel
foram ter com David a Hebron e disseram-lhe:
«Nós somos dos teus ossos e da tua carne.
Já antes, quando Saul era o nosso rei,
eras tu quem dirigia as entradas e saídas de Israel.
E o Senhor disse-te:
“Tu apascentarás o meu povo de Israel,
tu serás rei de Israel”».
Todos os anciãos de Israel foram à presença do rei, a Hebron.
O rei David concluiu com eles uma aliança diante do Senhor
e eles ungiram David como rei de Israel.”

Neste episódio está registado um momento decisivo da História da Salvação. David, que era genro do rei Saul e comandante do seu exército, foi escolhido para assumir a liderança do reino após a morte deste. Inicialmente, foi reconhecido como rei apenas pela tribo de Judá, no Sul. Contudo, as restantes tribos do Norte continuaram a seguir Isboset, filho de Saul. Com o trágico assassinato de Isboset pelos seus próprios homens, as dez tribos do Norte voltaram-se então para David, reconhecendo nele o líder que Deus havia ungido, e uniram-se sob o seu reinado. Assim se cumpriu uma etapa fundamental do desígnio divino, David é o rei das doze tribos de Israel unindo todo o povo de Israel.

As palavras da Sagrada Escritura nunca são ao acaso e é importante notar que os israelitas se dirigem a David usando a frase “Nós somos dos teus ossos e da tua carne.” Mas o que significa esta expressão?

Ao dizerem a David: “Somos dos teus ossos e da tua carne”, os anciãos de Israel recorrem a uma linguagem carregada de significado bíblico, pois estas palavras fazem eco da declaração de Adão quando vê Eva, a sua mulher, em Génesis 2: “osso dos meus ossos e carne da minha carne”.

Não se trata apenas de uma afirmação de laços naturais, mas de uma fórmula usada em contextos de aliança, sinalizando a criação de um vínculo profundo e duradouro.

Tal como Adão reconhece em Eva a sua companheira e a toma como esposa, também Israel se apresenta a David como sua esposa. Os Israelitas não reivindicam David como seu, mas oferecem-se a ele, assumindo o lugar da esposa diante do esposo.
Esta dinâmica nupcial discreta, mas poderosa, marca o início do reinado de David e lança as bases para um tema que percorre toda a Escritura: o rei como esposo do povo.

Esta imagem será celebrada no Cântico dos Cânticos, intensificada nos profetas e encontrará o seu cumprimento em Cristo, o Filho de David, que desposa a Igreja como sua Esposa, numa aliança eterna de amor.

E, para dissipar quaisquer dúvidas, o próprio texto diz que “O rei David concluiu com eles uma aliança diante do Senhor e eles ungiram David como rei de Israel”. Assim, não só o povo se oferece a David numa aliança, como o próprio David a confirma solenemente. Esta relação é selada diante do Senhor com um gesto litúrgico de grande significado: o povo unge David como seu rei. Ungir é mais do que um simples acto simbólico — é uma consagração. Ao ser ungido, David torna-se o mashiah (em hebraico), ou christos (em grego) — aquele que é “ungido”, título que virá a ser traduzido por “Messias”. Com esta unção, David é instituído rei sobre o povo, numa união que antecipa, de forma profética, a realeza messiânica de Jesus Cristo, o verdadeiro Ungido de Deus.

A ponte entre esta realidade do Antigo Testamento e o seu cumprimento no Novo — e também a ponte para nós, hoje — encontra-se no Salmo 121. Um belíssimo salmo, que é um dos salmos ou “cânticos de ascensão” de David.

Mas o que significa “cântico de ascensão”? No contexto bíblico, havia salmos que eram cantados enquanto o povo subia em peregrinação para Jerusalém, especialmente nas grandes festas. Também os sacerdotes os cantavam ao subir as escadas do templo para oferecer sacrifícios no altar.

O Salmo 121 é-nos bem conhecido, mas vale a pena recordar aqui o seu início:

“Alegrei-me quando me disseram:

«Vamos para a casa do Senhor».
Detiveram-se os nossos passos
às tuas portas, Jerusalém.
Jerusalém, cidade bem edificada,
que forma tão belo conjunto!
Para lá sobem as tribos,
as tribos do Senhor.”

Este salmo evoca a idade de ouro de Israel, quando, sob o reinado de Salomão, o Templo, a “Casa do SENHOR”, foi construído em Jerusalém. Todas as doze tribos tinham, então, a liberdade de subir à cidade santa para adorar, oferecer sacrifícios e procurar justiça. Era um tempo de unidade, de presença divina no meio do povo.

Contudo, séculos mais tarde, no tempo de Jesus, essa realidade já estava fragmentada. Dez das doze tribos estavam dispersas, perdidas entre as nações. E, no entanto, o Salmo 121 continuava a ser cantado com esperança: um dia, o Messias, Filho de David, viria restaurar o trono e reunir as tribos, instaurando uma nova Jerusalém, mais gloriosa, mais bela, mais luminosa do que nos tempos de Salomão.

Quando Jesus surgiu, muitos esperavam uma restauração política, visível, à imagem do antigo reino de David. E, de certo modo, os sinais pareciam alinhar-se: Jesus chamou doze discípulos (como que representando as doze tribos), realizou milagres e falou do Reino de Deus. Tudo parecia apontar para a sua entronização em Jerusalém. Mas o desfecho foi inesperado: em vez de subir a um trono, Jesus foi rejeitado, preso, condenado e crucificado. Para muitos, isto parecia o fim da esperança messiânica.

Mas o mistério profundo da fé cristã revela outra verdade: é precisamente na cruz que Jesus reina. O seu baptismo no Jordão prefigurava já este mergulho na dor, no sacrifício, na entrega total. E é nesse amor até ao fim que Ele é verdadeiramente entronizado como o Rei e Messias prometido. A cruz não é o fracasso da realeza de Cristo, mas a sua verdadeira coroação.

Hoje, o Salmo 121 continua a ser o cântico da Igreja, a Esposa de Cristo, que, em cada Eucaristia, sobe espiritualmente à nova Jerusalém. É no seio da Igreja que encontramos a verdadeira Casa do Senhor. É nela que, unidos em aliança com o nosso Rei, damos graças ao Seu nome, sobretudo na celebração do sacrifício eucarístico, a verdadeira “acção de graças”.

O Evangelho proclamado nesta Solenidade de Cristo Rei, à primeira vista, parece contrastar com as leituras anteriores, que exaltavam a glória e o poder do Filho de David. Aqui o transcrevemos:

Naquele tempo,
os chefes dos Judeus zombavam de Jesus, dizendo:
«Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo,
se é o Messias de Deus, o Eleito».
Também os soldados troçavam d’Ele;
aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:
«Se és o rei dos Judeus, salva-Te a Ti mesmo».
Por cima d’Ele havia um letreiro:
«Este é o rei dos Judeus».
Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados
insultava-O, dizendo:
«Não és Tu o Messias?
Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».
Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o:
«Não temes a Deus,
tu que sofres o mesmo suplício?
Quanto a nós, fez-se justiça,
pois recebemos o castigo das nossas más ações.
Mas Ele nada praticou de condenável».
E acrescentou:
«Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza».
Jesus respondeu-lhe:
«Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».

Aqui, vemos o nosso Rei humilhado, insultado, torturado e crucificado. Parece uma derrota. Mas, no coração deste aparente fracasso, revela-se uma verdade profunda e paradoxal: a cruz é o trono de Jesus. É nela que Ele reina e é através dela que o seu Reino se manifesta.

O Seu é um Reino de redenção, de perdão dos pecados — e não há perdão sem sacrifício. Jesus, o Rei, assume as culpas dos seus súbditos. Faz a paz, não com espada, mas “pelo sangue da sua cruz” como escreveu S. Paulo na Carta aos Colossenses (Col 1,20). O Seu Reino “não é deste mundo”, está presente no mundo, mas não se identifica com os critérios do poder humano.

No alto da cruz, enquanto todos O abandonam, um criminoso reconhece o Rei. O bom ladrão arrisca tudo com um último acto de fé: “Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza.” Não oferece ouro nem incenso. Não tem sequer um copo de água para dar. Mas oferece o que pode: solidariedade, fé, confiança, um gesto de amor num momento de trevas. E recebe mais do que ousava imaginar: “Hoje estarás comigo no Paraíso.”

Neste Evangelho, celebrado na solenidade de Cristo Rei, somos recordados de que o Reino de Jesus, neste mundo, está sempre crucificado. Não nos disse Ele: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me.” (Lc 9:23)?

A cruz é o Seu trono e também o nosso. Só reinamos com Ele se aceitarmos, com amor, a cruz que nos cabe. O sofrimento, quando unido a Cristo, torna-se caminho de glória. Como afirma São Paulo na Carta aos Romanos: “Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com Ele sofremos, para também com Ele sermos glorificados.” (Rom 8:17).

O Reino de Deus não se impõe por força nem por leis humanas. O Evangelho é sempre um convite pessoal e radical. Cada um de nós tem de escolher. Vou viver segundo os meus desejos, ou entregar a minha vida a Jesus Cristo, Rei do Universo, Rei Crucificado, que virá julgar os vivos e os mortos? Qual é a minha escolha?


E por fim uma nota histórica relevante sobre a Solenidade de Cristo Rei:

O Papa Pio XI instituiu a Solenidade de Cristo Rei em 1925, na Encíclica “Quas Primas” num mundo ainda marcado pelas feridas da Primeira Guerra Mundial. O Papa via como causa principal do caos do início do século XX o facto de a sociedade ter rejeitado a realeza de Cristo, não apenas na vida pessoal, mas também na esfera política e pública. Pela primeira vez em séculos, nações erguiam-se sem qualquer referência à soberania de Jesus Cristo.

Foi diante de tais desafios que o lema “Regnare Christum vólumus” (Queremos que Cristo reine!) se tornou expressão do desejo ardente dos verdadeiros discípulos de Jesus. Essa aspiração é a mesma que ressoa na oração que o próprio Senhor nos ensinou: “Venha a nós o vosso Reino”.

Ao colocar esta solenidade em que celebramos Jesus Cristo, Rei do Universo. no final do ano litúrgico, a Igreja quis recordar que Jesus não é apenas Rei da Igreja ou dos crentes, mas o Rei de toda a criação, Aquele por quem e para quem todas as coisas foram feitas, e que há-de reinar eternamente no céu e na terra.

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