Solenidade de Todos os Santos

Por: Cónego Duarte da Cunha

Solenidade de Todos os Santos

Primeira Leitura: Apocalipse 7, 2-4.9-14
Salmo: 23 (24), 1-2.3-4ab.5-6 (R. cf. 6)
Segunda Leitura: 1 João 3,1-3
Evangelho: Mateus 5,1-12a

A Igreja celebra hoje todos os santos, isto é, celebra todos os homens e mulheres que, depois de terem vivido na terra em comunhão com a Igreja, estão agora no Céu e veem a Deus “tal como Ele é”.

Esta festa é antiquíssima. Pelo menos a partir do século IV há notícias de que em alguns lugares havia um dia para a comemoração de todos os mártires. No início, esta celebração acontecia logo após a Páscoa, precisamente para vincar a relação entre os santos e a Páscoa, sendo a santidade um fruto da Páscoa e não uma simples conquista humana. É porque Jesus, pela Sua morte e ressurreição, redimiu o mundo, que a santidade se tornou possível. Os santos, no fundo, são aqueles que acolhem o Espírito Santo de tal modo que passam a viver em tudo unidos a Ele. Recebendo pelo Baptismo esta vida nova e aderindo ao longo da vida terrena à vontade de Deus, muitas vezes enfrentando tribulações e até o martírio, muitos homens e mulheres tornaram-se santos.

Uma data importante para o estabelecimento desta festa, não deixa de ser interessante, foi o dia 13 de Maio do ano 609 (ou 610), quando o Papa Bonifácio IV, depois de ter recebido como oferta do imperador bizantino o Panteão, que tinha sido na Roma pagã o templo dedicado a todos os deuses, decidiu consagrá-lo e tornar esse edifício, significativamente, igreja dedicada a todos os mártires e a Nossa Senhora. Mais tarde, o Papa Gregório III (731-741) terá dedicado no dia 1 de Novembro de 731 uma capela na Basílica de São Pedro a todos “os apóstolos e todos os santos, mártires e confessores e todos os que, de todas as partes do mundo, se tornaram perfeitos e descansam agora”. A partir daí, aos poucos, esta a data foi-se tornando em todo o mundo a celebração de todos os santos, conhecidos ou não pelos homens, que estão no Céu.

As leituras da Missa de hoje ajudam, por um lado, a perceber quem são os santos que celebramos e, por outro, apresentam o desafio a que todos sejamos igualmente santos, mostrando como isso é bom. Celebramos todos os que já estão no Céu e recordamos que todos nós somos chamados a ir para o Céu, ou seja, a ser santos.

Desde logo, temos a primeira leitura, tirada do livro do Apocalipse, que nos diz quem são os santos. Este livro mostra, num estilo muito próprio, as visões do Apóstolo São João sobre a história após a vitória de Jesus Cristo. Apresenta não só o que acontecerá no fim dos tempos, mas o que já está a acontecer por causa da vitória do Cordeiro, ou seja, de Jesus Cristo. O trecho que lemos na missa deste dia começa por indicar quem são esses que alcançam a vitória e chegam ao Céu.

Fala de dois grupos: os que provém de Israel e, simbolicamente, é dito que são 144.000. Este número é uma multiplicação do número das tribos de Israel (doze), pelo número dos Apóstolos (também doze) e por mil, que indica uma perfeição ou um estado completo. Não é, por isso, um número fechado, mas indica uma multidão, que sendo herdeira da Antiga Aliança também aderiu à Nova Aliança.

São João diz que estes estão marcados na fronte. Este facto leva-nos ao Antigo Testamento e, concretamente, a dois episódios significativos em que se fala de uma marca naqueles que deverão ser salvos, ou seja, poupados de algo devastador. Temos, no livro do Êxodo, a noite pascal em que um anjo é enviado para matar todos primogénitos dos egípcios, mas em que serão salvos aqueles cujas casas estiverem marcadas com o sangue do cordeiro (Ex 12, 13). A marca feita na padieira das portas é feita com o sangue do cordeiro imolado nesse dia e indica que os dessa casa são do povo eleito e devem ser poupados à morte. Pode, por isso, ser visto como sinal de vida que vence a morte, tal como vencerão a morte os que são marcados com o nome Deus na sua fronte e que o livro do Apocalipse no último capítulo apresenta como os que chegam ao Céu onde já não haverá noite (Ap 22, 4).

Igualmente significativo é o que temos no livro de Ezequiel (9,4). O profeta tem uma visão em que Deus diz a um “homem vestido de linho” para “percorrer a cidade de Jerusalém e marcar com um sinal a testa dos homens que choram por causa dos pecados que se fazem.” Quando está iminente uma grande devastação causada pelo pecado dos homens, são marcados aqueles que sofrem por ver o estado miserável em que o povo tinha decaído ao acumular pecados, ou seja, os que não se deixam contaminar pelo mal. Podemos, de algum modo, concluir que no Apocalipse se faz ver como a profecia de Ezequiel se realiza nos santos, pois estes são aqueles cujo coração se une ao de Cristo e não se conformam com a maldade, mesmo que esta se generalize. No fim da história, a vitória, como diz a leitura, é deles, mesmo que por um tempo pareça terem sido abandonados. Uma das bem-aventuranças, como se ouvirá no Evangelho da missa de hoje, recorda precisamente que são bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Os justos são os que choram pelo mal que vêem e ao qual não aderem de modo algum, porque percebem que Deus está a ser ofendido e ficam tristes por isso.

Mas o livro do Apocalipse faz referência a um segundo grupo, além destes 144000 que provêm de Israel. O Apóstolo também vê uma enorme multidão que ninguém pode contar e que provêm de todas as nações, tribos, povos e línguas. É deste modo que se percebe que a Aliança que Deus tinha realizado com Abraão, com a qual preparou um povo que haveria de receber o Redentor da humanidade, iria ser renovada, e seria alargada a todo o mundo. Já não seria apenas para os membros das tribos de Israel, mas para todos os homens e mulheres. O traço distintivo deste grupo já não será uma marca na fronte, mas as vestes brancas e as palmas que trazem nas mãos. Este facto, para os israelitas do tempo em que Jesus e São João viveram na Palestina, faria, certamente, pensar na festa das Tendas ou dos Tabernáculos. Com efeito, esta festa, que comemorava o fim da colheita dos frutos do Verão em Setembro, também celebrava a bondade de Deus para com o Povo que tinha libertado do Egipto e acompanhado durante 40 anos no deserto e ainda era considerada a festa da realeza de Deus.

Precisamente para recordar que os israelitas tinham vivido em tendas até chegarem à Terra Prometida, chamava-se a esta a festa das Tendas e muitos faziam tendas nesses dias à volta de Jerusalém. As palmas que tinham nas mãos seriam para construir as tendas. De certo modo, podemos dizer que São João recorda que os santos, ao terem sido libertados do pecado, purificados pelo sangue, ou seja, pela cruz de Cristo, pegam nas suas palmas para entrarem no “acampamento” de Deus e, finalmente, descansarem em liberdade, até que a Nova Jerusalém seja construída no fim dos tempos. Cumpria-se, assim, a profecia de Zacarias que dizia: “acontecerá que todos os sobreviventes de todas as nações que marcharam contra Jerusalém subirão, ano após ano, para prostrar-se diante do Rei Iahweh dos Exércitos e para celebrar a festa das tendas” (Zac 14,16)

Interessante, também, o facto de virem com vestes de branco. Por um lado, esta brancura faz referência à pureza. Por isso, os batizados ainda hoje recebem uma veste branca no Baptismo. Por outro lado, estas vestes também apontam para as vestes dos sacerdotes, os únicos que podiam entrar no Templo do Senhor, e que tinham de vestir-se de forma especial para entrar na Tenda da reunião e, mais tarde, quando foi feito o Templo, no Santuário (Ex 28, 40-43; Lv 8, 7-9) para oferecer o sacrifício. Agora, no Apocalipse, a multidão vestida de branco é constituída por pessoas que, como os sacerdotes que entravam na Tenda do Senhor, podem prestar culto a Deus. Uns capítulos antes, fala dos que cantam o cântico novo que diz que o Cordeiro é digno de abrir os selos do livro da vida, porque foi imolado e, pelo seu sangue, resgatou para Deus homens de toda a tribo, língua, povo e nação, fazendo deles, para Deus, um reino de sacerdotes (cf. Ap 5, 9-10). Trata-se, portanto, de uma multidão que, pelo Baptismo, foi purificada, mas também capacitada para se oferecer ao Pai em união com o Cordeiro que foi imolado.

Note-se, porém, que não se diz que a purificação é algo de automático, pois se é verdade que a salvação e a santificação vêm de Deus e são gratuitas, é também certo que é preciso cada um aderir, acolher, tomar para si os dons de Deus. Por isso se diz que os que vêm vestidos de branco são aqueles que “vêm da grande tribulação, lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro.” Os santos enfrentaram as tribulações da vida com empenho e fidelidade, recorrendo às graças que brotam da Cruz de Cristo e estão vivas nos sacramentos e na vida da Igreja, e, desse modo, souberam viver de acordo com o que Jesus ensinou.

Podemos, agora, olhar para o Evangelho deste dia, tirado do relato de São Mateus do Sermão da Montanha. Aqui, Jesus diz que a vida dos santos é feliz, ou seja, é uma vida bem-aventurada. Os santos são, precisamente, os bem-aventurados ou, se quisermos, numa tradução mais imediata, os que conseguem realizar bem a aventura da sua vida e é por isso que são felizes, pessoas realizadas plenamente. Uma felicidade plena só pode ser experimentada pelos santos! Podemos, por isso, dizer que as bem-aventuranças descrevem a experiência dos santos e o modo como eles vivem. Antes, porém, devemos dizer que elas descrevem a vida de Jesus. Dele é o Reino de Deus, Ele o Rei! Ele possui a terra, porque, como dirá São Paulo, “por Ele e para Ele tudo foi criado” (Col 1,16); Ele é o consolado que ressuscitou; Ele realiza a verdadeira justiça, porque faz sempre a vontade do Pai; com Ele tudo fica consumado e é, por isso, que podemos dizer que Ele fica saciado; Ele, que nunca pecou, alcança para todos nós a misericórdia; Ele é Aquele que vê sempre o Pai, como Ele mesmo dirá: “ninguém conhece o Pai se não o Filho” (Mt 11, 27); Ele é o Filho de Deus. Todas as bem-aventuranças, no fundo, descrevem Jesus. Por isso, Ele é o homem feliz. Contudo, paradoxalmente, para Ele, como depois o será para os que O seguem, a experiência desta felicidade acontece não numa vida fácil e abastada neste mundo, mas passa por ser pobre e humilde, por ser manso, por chorar ao ver a maldade do mundo, por ter fome e sede de justiça, por ser misericordioso e puro de coração, por não ser indiferente, mas promover a paz mesmo sendo perseguido! Os santos são bem-aventurados porque, na verdade, como Jesus, sabem que este mundo não é absoluto.

Vejamos, agora, a segunda leitura desta missa, que é tirada da Primeira Carta de São João. Ela torna ainda mais claro que a santidade é a felicidade, mas faz-nos ver que há duas etapas que esta festa de todos os santos nos quer propor: que saibamos que os santos no tempo em que estiveram na terra já saboreavam o facto de serem filhos de Deus, mas também nos diz que a plena felicidade só se alcança no Céu, quando se puder finalmente ver a Deus face a face. Isto também indica que nesta celebração podemos, por um lado, olhar para os santos como modelos de vida nesta terra, e, por outro lado, podemos avivar com eles o desejo de ir para o Céu. Um santo não se demite da vida terrena a pensar no Céu, nem se limita a esperar uma vida boa nesta terra que ele sabe ser limitada, mas espera a plena visão de Deus no Céu.

É por isso que São João, entusiasmado, diz: “Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto.” Ou seja, ser filho de Deus é algo que já somos e que não é uma coisa só de nome. O nome de filho é-nos dado porque somos mesmo filhos, porque nos foi dado o Espírito Santo, ou seja, Deus adoptou-nos e tornou-nos herdeiros de todas as graças. Contudo, o Apóstolo, também nos faz ver que, apesar de já ser muito bom viver na terra como filho de Deus, a felicidade plena só se alcança depois, quando virmos a Deus face a face, naquilo que, precisamente, a Igreja chama, visão beatífica, ou seja, quando a nossa comunhão com Deus, depois da morte, e mesmo antes da ressurreição dos corpos e do fim dos tempos, nos permitir ver a Deus tal como Ele é – que é como quem diz estar unido a Ele.

Podemos dizer que os santos são, antes de mais, homens e mulheres que realizam a sua humanidade. Porque, estando unidos a Deus, Eles participam da Verdade, do Bem e da Beleza de Deus de modo especial, mas, também porque partilham do Seu amor misericordioso e querem que todos os outros se unam a eles, os santos no Céu amam de forma ainda mais pura e, se enquanto vivem na terra exprimem o amor pelas obras de misericórdia e pelo empenho missionário, quando chegam à plena comunhão com Deus, ainda vão estar mais atentos e preocupados com os que ainda vivem na terra. Por isso, falamos da comunhão dos santos que une não só os que estão no Céu, mas também os que para lá caminham.

Mesmo depois de deixarem este mundo, os santos continuam a ser para nós, que ainda somos peregrinos nesta terra, uma ajuda a quem podemos recorrer rezando para pedir auxílio, mas são pessoas que queremos imitar para conseguirmos percorrer o mesmo caminho para o Céu, e eles nos hão-de ajudar a isso, certamente.

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